Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Das Armas dos de Pereira

 

 
A génese das armas da família Pereira (de vermelho, uma cruz florida de prata, vazia do campo) é imputada, pela generalidade dos genealogistas dos sécs. XVII e XVIII, à decisão de D. Rodrigo Forjaz de Trastâmara de assumir, como insígnia pessoal, uma cruz inspirada na que alegadamente vislumbrara no céu, aquando da batalha das Navas de Tolosa, em 1212, o que configura uma interpretação anacrónica, porquanto D. Rodrigo, avô do primeiro Pereira, foi coevo do Conde D. Henrique, logo faleceu bem antes desta data. Aliás, o pretenso milagre foi longamente invocado para justificar o conjunto de cruzes floridas presentes nos brasões de diversas linhagens peninsulares…
Esta explicação fantasiosa, propalada a partir de Argote de Molina, genealogista andaluz do séc. XVI, foi rebatida por Braamcamp Freire ao alvitrar que, provavelmente, as cruzes floreadas haviam sido adoptadas em atenção às ordens militares de Calatrava ou de Avis, consoante o caso, e denunciavam antigas ligações dos progenitores das famílias que as usam àquelas instituições.
Na mesma linha, mas remontando nas origens, seguiu o Marquês de São Payo, explanando que a Ordem de Calatrava, fundada cerca de 1150 por D. Afonso VII, perfilhara a regra de Cister, em 1187. Então, colocara-se sob a jurisdição canónica da abadia francesa de Morimond que usava por armas: de prata, uma cruz ancorada de vermelho, cantonada por quatro letras MORS de negro. Em sinal de filiação, a Ordem de Calatrava escolheu aquela cruz como insígnia, obliterando as letras, e, com o tempo, a cruz de ancorada passou a florida, pela emergência, em cada braço, de uma terceira ponta entre as duas reviradas em âncora.
Mais recentemente, coube ao Marquês de Abrantes reiterar a tese de que as armas dos Pereiras emanam da emblemática de Calatrava ou de Avis, por esta constituir a explicação mais natural para a multiplicidade de cruzes flordelisadas na heráldica ibérica.
Desta breve resenha ressalta que, curiosamente, as orientações imprimidas à investigação da raiz do escudo dos Pereiras se têm circunscrito a considerandos sobre o tipo de cruz nele presente (florida), passando despercebidos os demais componentes das armas, nomeadamente o metal da própria cruz (prata) e a cor do campo (vermelho). Ora, é precisamente em função destes últimos elementos que julgo possível gizar uma nova hipótese, radicando a heráldica dos Pereiras na da ordem militar do Hospital de S. João de Jerusalém, que fora introduzida em Portugal entre 1122 e 1128.
Perscrutando a indumentária e a emblemática dos hospitalários, constata-se que estes usavam inicialmente um manto negro, sobre o qual coseram, no primeiro quartel do séc. XIII, uma cruz branca de 8 pontas (cruz pateada de cauda de andorinha). O manto só terá mudado de negro para vermelho cerca de 1259, isto entre os cavaleiros pois os sargentos alteraram-no depois de 1278, conservando a mesma cruz. Seriam as armas da Ordem de Malta, designação da Ordem do Hospital após 1530, ano em que os cavaleiros se estabeleceram naquela ilha, cedida, para o efeito, pelo Imperador Carlos V.
Regressando aos primitivos hospitalários, a cruz pateada não parece ter sido utilizada na cota militar, onde a cruz branca seria antes simples e firmada. Aliás, desde 1182, provavelmente ainda antes, o gonfalão (antiga bandeira farpada) da Ordem era vermelho com uma cruz branca firmada. Todavia, um escudo idêntico, supostamente apenas foi adoptado universalmente em todas as dependências do Hospital com o Grão-Mestre Nicholas de Lorgne (1277-1285).
Entretanto, a aferição de presumíveis laços entre os Pereiras e o Hospital revela indícios positivos. O eminente medievalista Professor José Mattoso estima que no séc. XIII já todas as famílias nobres portuguesas incorporavam filhos nas ordens militares e que os Pereiras preferiam ser hospitalários. Por sua vez, Bramcamp Freire, em consonância com o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, menciona um D. Frei Gonçalo Peres de Pereira como Grão-Comendador de Espanha, na Ordem do Hospital, pelos anos de 1269 a 1291, e Felgueiras Gayo assegura que uma memória dá Gonçalo Pereira, pai e homónimo do notável Arcebispo de Braga avô do Santo Condestável, como comendador na mesma ordem militar. Trata-se de meios-irmãos, ambos filhos de D. Pedro Rodrigues Pereira, que foi o primogénito e sucessor de D. Rodrigo Gonçalves Pereira, 1º Senhor da torre e quintã de Pereira, genearca dos deste apelido.
Segundo o Marquês de Abrantes, é na Sé de Braga, mais precisamente na capela funerária de D. Gonçalo Pereira, Arcebispo após 1323, que se observa a mais antiga representação colorida conhecida das armas dos Pereiras, em fresco de meados do séc. XIV. O mesmo autor refere que aquele clérigo usou armas idênticas no selo ogival. Seu filho, D. Álvaro Gonçalves Pereira, ingressou precocemente nos hospitalários vindo a ser escolhido para Prior, o primeiro a estabelecer-se no Crato. Aí, fundou o convento da Flor da Rosa, cerca de 1356, como nova sede da ordem, onde jaz num túmulo de mármore apenas cinzelado com os escudos, lado a lado, dos Pereiras e do Hospital (cruz simples firmada).
Em sintonia com a linha de interpretação sugerida, será pertinente realçar a conjugação, na segunda metade do séc. XIII, de alguns factores: os Pereiras recorrem essencialmente à Ordem do Hospital para colocarem os seus membros como cavaleiros, mormente os filhos segundos; memórias assinalam que, neste período, importantes figuras daquela linhagem administram comendas nesta ordem militar; os hospitalários já trazem nas cotas de armas, estandartes e escudos, uma cruz firmada de prata em campo vermelho.
Uma maior consolidação documental das indubitáveis ligações entre os primeiros Pereiras e os cavaleiros-monges sobreditos afigura-se crucial para consubstanciar melhor a leitura que propomos, mas as pesquisas esbarram com engulhos resultantes da destruição do arquivo da ordem, aquando do saque do Crato pelo exército espanhol de D. João de Áustria em 1662.
Não obstante reconhecer as limitações do material aduzido, suponho que ele indicia, com alguma verosimilhança, que as armas dos Pereiras terão surgido na segunda metade do séc. XIII inspiradas nas do Hospital, ou talvez antes, mas é menos provável, se derivadas do gonfalão de combate dos hospitalários.
Aparentemente, só as terminações em flor de lis dos braços da cruz dos Pereiras afastam o seu brasão da heráldica estritamente hospitalária. Na explicação de Ottfried Neubecker, um dos maiores heraldistas do séc. XX, a flor de lis é um emblema da Virgem desde o ano mil. Assim, serão as armas dos Pereiras o resultado de fusão entre as do Hospital e a simbólica mariana? Uma estatueta de Nossa Senhora das Neves, do séc. XIV, conhecida por Senhora de flor da Rosa, dá o nome ao convento do Crato. Presumivelmente lá colocada pelo seu fundador, traduzirá uma tradicional devoção dos Pereiras pela Virgem?
Também não é de arredar a hipótese de o uso de braços flordelisados reflectir, tão-só, uma mera questão de gosto estético, em face da prodigalidade deste tipo de estilização, e outro tanto se poderá dizer dos Pereiras terem vazado a sua cruz.
Fugindo a mais conjecturas, espero unicamente ter despertado atenções para uma possível conexão entre as emblemáticas examinadas.
 
Bibliografia citada no artigo publicado na revista “Armas e Troféus” 1989/90, do Instituto Português de Heráldica.
publicado por Eu às 16:18
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Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Ligações familiares de Vasco da Gama pelo lado materno

 

 
Ao estudar as ligações familiares do grande navegador Vasco da Gama pelo lado materno é obviamente imperioso começar por determinar quem foi a sua mãe e afinal ele próprio. Embora assim pareça, à partida, a questão não é absolutamente absurda, porque é um facto comprovado que, ainda solteiro, seu pai teve um primeiro filho bastardo, anterior ao casamento com Isabel Sodré, a quem deu o mesmo nome e do qual nada transpirou para a História excepto ter existido e na juventude ter tomado a primeira tonsura no mesmo dia que seus meios-irmãos, conforme mais à frente pormenorizarei.
O problema está resolvido nos escritos dos grandes cronistas coevos no sentido do 2º Vice-Rei da Índia pertencer à família Sodré pelo lado materno. Efectivamente, João de Barros e Diogo do Couto afirmam que Vicente Sodré era tio de Vasco da Gama e irmão de sua mãe; Damião de Góis dá Vicente Sodré como tio de Vasco da Gama; Fernão Lopes de Castanheda e Gaspar Correia escrevem que Vicente Sodré era seu parente; Gaspar Correia, que esteve na índia com Vasco da Gama já Vice-Rei, e Diogo do Couto, em tratado sobre os Gamas, asseveram que este era irmão mais novo de Paulo da Gama. Também o registado, neste contexto, nas relações das naus e armadas da Índia é coerente com os principais cronistas.
Ora se o descobridor tivesse sido o Vasco da Gama bastardo, então não era sobrinho de Vicente Sodré, nem seu parente, nem irmão mais novo de Paulo da Gama. Além de que, a ser verdade, a bastardia jamais deixaria de ser lembrada e apontada pelos seus inúmeros inimigos ao longo dos tempos, o que não aconteceu…
Outrossim, na época, não faz qualquer nexo que o chefe da família, Paulo da Gama, aceitasse a desonra de ser subalterno de um meio-irmão bastardo. Ao invés, note-se que a forte ligação fraterna do Vasco da Gama histórico ao seu irmão mais velho Paulo Gama o levou a quedar-se na cidade de Angra, na Ilha Terceira, até à consumação da morte deste, adiando o regresso a Lisboa, onde o D. Manuel o aguardava, enquanto manda Nicolau Coelho e João de Sá prosseguirem viagem. Nicolau chega em Julho de 1499, Gama só dois meses mais tarde! Enfim, julgo que a questão é líquida e não merece mais atenção.
A dúvida vai ser outra, é que durante séculos, e ainda hoje, os genealogistas, copiando-se uns aos outros, induziram em erro os melhores e mais modernos autores que versaram a figura do Conde-Almirante Dom Vasco da Gama, descobridor do caminho marítimo para a Índia, quanto aos seus avós maternos, ao propalarem que sua mãe, Isabel Sodré (mulher de seu pai, Estevão da Gama, Alcaide-mor de Sines), era filha de Maria Sodré e de João de Resende, Provedor das valas de Santarém.
Tanto quanto me apercebi, apenas Cristovão Alão de Morais, na Pedatura Lusitana, aponta João Sodré como o pai de Isabel Sodré, mas mantém o erro de apresentar Maria Sodré como a mãe. Na geração antecedente, Maria Sodré é referida com filha de um tal Fradique Sodré, figura de que não encontro documentação indiscutível, pelo que aqui pararia a investigação genealógica.
Obras bem recentes mantêm este erro, porém já nada o justifica depois da Academia Portuguesa de História haver publicado, em 1990, a matrícula de ordens da diocese de Évora (1480-1483), pela qual Isaías da Rosa Pereira prova que Vicente Sodré (irmão mais novo de Isabel Sodré) é filho de João Sodré e de Isabel Serrã. (feminino de Serrão). Assim, é este casal que deve ser considerado sendo o dos avós maternos de Vasco da Gama, o qual recebeu a primeira tonsura juntamente com o seu tio Vicente, em Sines, a 5 de Novembro de 1480, seu meio-irmão Vasco, e irmãos inteiros Paulo, João e Pedro.
A matrícula mencionada demonstra cabalmente que Vasco da Gama era filho terceiro do casal Estêvão Gama e Isabel Sodré e que foram seus irmãos mais velhos outro do mesmo nome (meio-irmão, filho ilegítimo de mãe solteira de nome desconhecido, quando Estêvão ainda era solteiro), Paulo da Gama e João Sodré (espelhando a tradição de dar a um filho o nome do avô materno) e irmão mais novo Pedro da Gama. Embora não referidos na matrícula de ordens, também foram seus irmãos mais novos Aires da Gama e Teresa da Gama.
Esta descoberta é prenhe de consequências genealógicas, e é este filão que me proponho explorar, ligando o Conde-Almirante aos Sodrés do século XV e primeira metade do século XVI, e estes entre si, sem recorrer a genealogias manuscritas, excepto quanto estas mencionam e permitem alcançar documentação histórica válida.
João Sodré, avô materno de Vasco da Gama, era Almoxarife do Armazém de Lisboa, Escudeiro e Criado da Casa Real, em 1447. D. Afonso V fez-lhe doação de uma quinta no Porto, a 25 de Março de 1455, e de bens confiscados a partidários do infante D. Pedro, a 10 de Julho de 1449. Sua mulher, Isabel Serrã, era donzela da Infanta D. Beatriz e filha de Afonso Lopes e de Teresa Eanes, amos da Rainha de Castela, D. Isabel (filha do Infante D. João, Condestável do Reino e Administrador da Ordem de Santiago).
Teresa Eanes, casara, em segundas núpcias, com Fernão Sodré, pai de João Sodré. Assim, Fernão Sodré e Teresa Eanes promoveram o casamento entre dois dos seus filhos de anteriores casamentos e, a 9 de Junho de 1447, fazem-lhes doação de todos os seus bens sitos em Montemor-o-Novo, Alcácer, Almada, Lisboa e Mafra. Também os irmãos de Isabel Serrã (João Serrão e Inês Serrã) abdicaram das respectivas heranças a favor do casal.
Deste modo, descobre-se que Fernão Sodré é o bisavô materno de Vasco da Gama. Criado e Escudeiro de D. João I, era Escrivão da alfândega de Lisboa quando, a 27 de Agosto de 1437, lhe foram confiscados diversos bens na sequência do desmantelamento de toda a equipa alfandegária por apropriação ilícita de mercadorias. Terá acabado como Reposteiro-mor de D. Isabel, Rainha de Castela (segundo nota de D. Flamínio de Sousa). Julgo muito provável que tenha posto a seu filho o nome de seu pai, pelo que Fernão Sodré seria irmão de João Sodré, que a Crónica de D. Pedro de Meneses regista como Cavaleiro em Ceuta entre 1415 e 1418, pois é referido logo antes do cerco da praça pelo Rei de Fez, de 1418-19, devendo ter estado entre os cerca de 19.000 combatentes que conquistaram a cidade, a 21 de Agosto de 1415. E neto de um outro João Sodré ainda por detetar e talvez o primeiro deste apelido.
Deste modo, é de crer que este João Sodré foi o trisavô materno de Vasco da Gama, representando a primeira geração de Sodrés portugueses. Caso se confirme a origem inglesa deste apelido, o que não é indiscutível, o seu pai terá entrado em Portugal no contexto das contingências da aliança com Inglaterra, a partir do Tratado de Tagilde de 1372.
Duarte Sodré é a figura cimeira da família Sodré durante o século XV, conforme ajuízo da documentação que consultei. Terá nascido em Santarém, pois aí era a casa de seus pais. Em 1465, era escudeiro da Casa do Infante D. Pedro (ex-Condestável do Reino e efémero Rei da Catalunha). Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador de Santa Ovaya do Juncal, na mesma Ordem, antes de 1475. Vedor da Casa do Duque de Viseu, D. Diogo II e, mais tarde, Vedor da Casa do Duque de Beja, futuro Rei D. Manuel.
É autorizado a instituir um morgado nos reguengos de Tojoza e Alviela (termo de Santarém) com a obrigação dos sucessores seguirem o apelido Sodré, por carta de 23 de Agosto de 1486 registada na Chancelaria do Rei D. João II, na qual é designado como Cavaleiro da Casa Real. Também recebeu do Rei D. João II, em Novembro de 1492, certos bens e herança no lugar de Romão, no almoxarifado da Guarda, tomados a três moradores locais.
Pelo menos desde 1494, foi Alcaide-mor de Seia. A 26 de Janeiro de 1493, já era Comendador e Alcaide-mor de Tomar (ou seja, era comendador da vila e governador militar do castelo, desempenhando diversas funções e exercendo determinados direitos e respectiva cobrança) e Provedor das capelas do Infante D. Henrique (o Navegador) com 7 marcos de prata de ordenado, o que era inerente a esta alcaidaria. Tinha pois a responsabilidade do cumprimento e fiscalização dos sufrágios por alma do Infante.
Comendador da Cardiga (uma das principais comendas da Ordem de Cristo), em data posterior ao mesmo dia de 26 de Janeiro de 1493 (pois nesse dia o Comendador ainda era Heitor de Sousa). A 13 de Fevereiro de 1496 era Vedor da Casa Real.
Fez testamento em Montemor-o-Novo, em 1496. Documento de 07 de Agosto de 1500 refere-o como Fidalgo régio, Comendador e Alcaide-mor de Tomar. Assim, foi indubitavelmente uma das mais importantes personagens da Ordem de Cristo do seu tempo. Faleceu a 25 de Agosto de 1500. Teve geração legitimada de Catarina Nunes.
Está sepultado junto ao altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Monte, em Santarém, tendo a sua lápide, epitáfio, escudo de armas pleno de Sodré, ladeado de espada e lança-pendão.
Segundo escreveu o seu filho Manuel, terá morrido pobre devido à sua generosidade e, enquanto viveu, era muito valido junto do Rei e conhecido no Reino. Entre os seus descendentes, aqueles que foram Senhores de Águas Belas (Ferreira do Zêzere) e usavam o apelido Sodré Pereira eram considerados os chefes do nome e armas de Sodré. Tanto mais que sucederam no morgado fundado por Duarte Sodré.
No seu testamento, lido por D. Francisco de Meneses, Cónego de Évora, Duarte Sodré indica como seus irmãos a Antão Sodré, seu testamenteiro, e Maria Sodré (esta é que terá desposado João de Resende) e nomeia seu filho Francisco Sodré para administrador do seu morgado, a que também deixou vinculadas algumas casas em Santarém herdadas de seus pais.
Teve filhos mais velhos nas pessoas de João Sodré (que renunciou à herança e se fez frade franciscano, falecendo antes de 1496) e Leonor Sodré, ambos legitimados em 1486. Esta e suas irmãs Isabel Sodré e Inês Resende foram freiras no Mosteiro de Santa Clara, em Santarém. Ainda foi pai de Catarina Sodré, casada em Santarém com Paulo Vaz Pimenta, e de Manuel Sodré (cuja intensa actividade na Índia é retratada na carta em anexo).
Francisco Sodré foi legitimado a 12 de Fevereiro de 1496. A 24 de Outubro de 1500, é nomeado Alcaide-mor de Seia. Cavaleiro-Fidalgo da Casa do Rei D. João III com 1700 reis de renda. Juntamente com o seu irmão Manuel, esteve na segunda conquista de Goa sob o comando do grande Afonso de Albuquerque. Morreu em serviço na Índia, entre 1539-1544. Casou com Violante Pereira, filha de João Pereira, 4º Senhor de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), ficando este senhorio na posse da família Sodré Pereira até ao reinado de D. José.
A enorme dificuldade de detectar qual o pai de Duarte Sodré afinal deriva do facto de que ele teve este apelido pelo lado da mãe, pois é filho de Gil Pires de Resende, Provedor dos valados de Santarém, assinalado como Contador na comarca dos almoxarifados de Santarém e Abrantes em documento de chancelaria de 21 de Dezembro de 1447 (regência do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra), bem referenciado em documentos da chancelaria do Rei D. Afonso V, e de sua mulher, Inês Sodré, provável sobrinha do Fernão Sodré acima assinalado como Escrivão da Alfândega de Lisboa, em 1437.
Desta sorte, Duarte Sodré foi neto do antedito João Sodré, Cavaleiro em Ceuta com o 1º Governador, D. Pedro de Meneses, que alguns autores assinalam como, mais tarde, fidalgo da casa real de D. Afonso V. Ademais, o facto de ter escolhido o nome de João para o filho mais velho indicia que esse seria o nome do avô.
A chave para estas ligações está na carta régia, de D. Afonso V, passada ao Escudeiro da Casa Real Antão Sodré (irmão de Duarte) em Tentúgal, a 2 de Setembro de 1464, fazendo-lhe mercê de Contador dos valados de Santarém e Abrantes, juntamente com seu pai Gil Pires de Resende (e não cunhado como já vi escrito). Antão Sodré subiria a Cavaleiro, e a documentação demonstra que, tal como seu pai, prosseguiu carreira em diferentes cargos de natureza administrativa, nomeadamente o de Corregedor de Entre Tejo e Guadiana em 1482.
Todavia, a personagem masculina da família Sodré mais unida a Vasco da Gama foi o seu tio Vicente Sodré, irmão mais novo de sua mãe Isabel Sodré, que fica na História como o primeiro Capitão-mor de uma esquadra europeia destacada a título permanente para a Índia (baseada em Cochim na costa do Malabar), incumbido de levar a cabo missões de domínio da navegação no Oceano Índico. Foi o primeiro Português a alcançar a Ilha de Socotorá e a explorar as costas do Sul da Península Arábica. Como Sota-Capitão levou o irmão Brás Sodré, antigo Cavaleiro da famosa Guarda de Ginetes de D. João II (na qual foi companheiro de Afonso de Albuquerque).
Vicente Sodré terá tido um papel de relevo na decisão de D. Manuel de substituir o indigitado Pedro Álvares Cabral por Vasco da Gama, na viagem para a Índia que partiu de Lisboa a 10 de Fevereiro de 1502, indo empossado de comando próprio de uma esquadra de cinco velas destinada a ficar no Índico e como Vice-Almirante do conjunto da armada, logo a seguir a seu sobrinho.
Com o regresso de Vasco da Gama a Portugal, Vicente Sodré ficou incumbido de duas tarefas estratégicas aparentemente inconciliáveis, porquanto tinha, por um lado, de garantir a protecção das feitorias portuguesas e dos Rajás de Cochim e de Cananor, nossos aliados, contra o poderoso Samorim de Calecute, e, por outro, de explorar e patrulhar as costas da Arábia e o Estreito do Bab el Mandeb, bloqueando as ligações marítimas entre o Cairo e os portos fornecedores das especiarias.
Só com cinco navios procurou fazer o possível, mas a inexperiência de navegação naqueles mares não lhe permitiu descortinar a aproximação de um furacão que causou a sua morte, por naufrágio, junto das ilhas de Curia Muria, em 30 de Abril ou 01 de Maio de 1503. Eliminado fisicamente, foi fácil a alguns denegrir a sua actividade, mas os diversos factores intervenientes merecem análise mais profunda, o que modestamente tentei realizar em estudo evocativo já concluído.
Em finais de 1500 ou no ano seguinte, Vicente Sodré torna-se Alcaide-mor de Tomar e Provedor da alma do Infante D. Henrique, cargos que pertenciam ao falecido Duarte Sodré e que não passaram para o filho deste Francisco (apenas herdou o de Alcaide-mor de Seia). Teve dois filhos, Fernão Sodré (nome do avô de Vicente)e João Sodré (nome do pai de Vicente). Fernão, legitimado por carta régia de 5 de Outubro de 1501, filho de Isabel Fernandes, foi Cavaleiro da Casa Real de D. João III e chegou a Alcaide-mor e Feitor de Ormuz, por carta régia de 4 de Fevereiro de 1528; João foi Escudeiro-Fidalgo. O irmão de Vicente Sodré, Brás Sodré, foi pai de Simão Sodré, figura assaz referenciada pelos cronistas, que serviu largos anos na Índia, sobretudo como comandante de navios.
Em 1524, o Vice-Rei, D. Vasco da Gama, nomeou Simão Sodré Capitão-mor de uma esquadra de quatro velas com que derrotou seis navios de piratas nas Maldivas. Este foi um verdadeiro homem do mar, realizando pelo menos três viagens de ida e volta entre Portugal e a Índia. A 09 de Abril de 1523, zarpou pela primeira vez como Capitão de um navio da armada de Diogo da Silveira. A 24 de Março de 1539, partiu de Lisboa como Capitão da nau Rainha da armada de Pêro Lopez de Sousa. A 25 de Março de 1543, voltou a ir para a Índia como Capitão da nau Conceição Galega da armada de Diogo da Silveira.
Cavaleiro-Fidalgo de El-Rei D. João III, ficou também memória da sua obstinação em, já muito idoso, partir do Reino com tropas para defender a praça de Mazagão cercada pelos mouros, em 1562. Exemplo do que de melhor havia nos antigos Portugueses, acabou, porém, por morrer solteiro e sem descendência.
Ficam, deste modo, desenhadas ligações genealógicas entre os Sodrés do século XV, e começos do seguinte, entre si e com Vasco da Gama, baseadas em documentação segura, que corrigem numerosos erros dos genealogistas. Um ponto interessante a investigar seria a hipótese do forte e constante envolvimento dos Sodrés na Ordem de Cristo haver facilitado o abandono, por parte de Vasco da Gama, da Ordem de Santiago e sua passagem para a de Cristo, algures na primeira metade do ano de 1507, em resposta à ofensa de ter sido coagido a abandonar definitivamente Sines, por acção do Mestre de Santiago, D. Jorge, a que o Rei D. Manuel deu cobertura por alvará de 21 de Março de 1507, favorável a este.
 
Anexo
 
O Secretário da Índia, Vicente Pegado, em carta de 1 de Janeiro de 1525, distingue Manuel Sodré como uma das “velhas figuras da Índia” que apoiaram Vasco da Gama no seu regresso à Índia como Vice-Rei, em 1524.
Manuel Severim de Faria apresenta alguma informação sobre aquele fidalgo e transcreve uma sua carta a El-Rei D. João III assaz curiosa, que apresento com comentários meus a fim de melhor situar e esclarecer o texto.
 
Na mesma Chancelaria (D. João III) acima de vinte e oito folha 74 (livro de ofícios e mercês de 1528) fazemos saber que havendo respeito aos serviços de Manuel Sodré, Fidalgo de Minha Casa, a El Rei meu Senhor e Padre e a mim tem feitos, etc. (....) faz-lhe mercê de Anadel-mor dos besteiros e espingardeiros nas partes da Índia em sua vida, aonde é morador, com ordenado de sessenta mil réis cada ano. Em Almeirim, a dezoito de Fevereiro de 1528.
 
No livro dos confessados do ano de 1539, 1540 e 1541, que está no armário segundo das mercês e moradias, (talvez perdido, porque não o encontrei na Torre do Tombo)(....) está uma verba debaixo do título de Cavaleiros-Fidalgos que diz assim, folha 16, Manuel Sodré, filho de Duarte Sodré, a dois mil por mês.
 
No maço vinte e cinco dos moradores da Casa da Rainha está uma carta de Manuel Sodré escrita a El Rei D. João III de Cananor, em dois de Janeiro de 1544, em que dá conta de seus serviços desde o tempo de Jorge de Aguiar, com quem foi à Índia com outro seu irmão que lá morreu em serviço (Francisco Sodré), e que foi a tal ida no ano de 1508, suas palavras são estas: em ser filho de Duarte Sodré, Alcaide-mor que foi de Tomar e Seia, Comendador da Cardiga, em tempo de El Rei que Deus haja (D. Manuel), seu Vedor e muito valido em sua Casa e conhecido no Reino, e por se esmerar em bem servir nos deixou pobres a meu irmão e a mim, não tendo outros filhos (refere-se a Francisco Sodré, porquanto o mais velho, João Sodré, terá falecido novo). Eu Senhor vim na armada de Jorge de Aguiar (morreu em naufrágio nocturno nas ilhas Tristão da Cunha) muito moço e comecei de servir com Duarte de Lemos na costa de Etiópia e Arábia e Ormuz, e ajudei a fazer a Fortaleza de Moçambique (seria a robusta torre que foi erigida em 1508), e depois Dom Afonso de Albuquerque todo o tempo que governou e com ele fui na tomada de Goa (trata-se da reconquista, a 25 de Novembro de 1510), onde quando foi para Malaca me deixou por Capitão da fortaleza e com a Capitania dos besteiros e espingardeiros com que me achei no cerco de Goa (pelo Idalcão de Bijapor, Ismael Adil Xá), quando os mouros entraram a ilha e mataram Rodrigo Rabelo o primeiro Capitão dela e eu ajudei a suster todo o tempo de cerco com muito trabalho e risco de minha pessoa sendo muitas vezes ferido até vir de Malaca Afonso de Albuquerque que a descercou e tomou Benastarim (em Novembro de 1512) outra fortaleza que os mouros tinham na ilha de Goa onde me então achei com ele. Fui ajudar a fazer a Fortaleza de Ormuz onde com uma galeota andei rondando e guardando a ilha que não entrasse gente da terra firme a ela, e assim servi todo o tempo de Lopo Soares (de Albergaria) com quem fui ao estreito a ver Judá (ou seja Jiddah, em 1517) e depois fui com ele ajudar a fazer a Fortaleza de Ceilão (Columbo, em 1517), e assim servi todo o tempo de Diogo Lopes de Sequeira com quem fui ao estreito de Meca (incursão no Mar Vermelho em 1520) e lhe ajudei a fazer a Fortaleza de Chaul e também servi em tempo de Dom Duarte de Meneses, andando sempre de armada e então por me ver pobre, e gastado, e esquecido, e mal provido de Vossa Alteza me casei para com o casamento que me deram me sustentar, o qual tornei a gastar em seu serviço. Começando a servir com o Vice-Rei Conde Almirante (Dom Vasco da Gama, em 1524), e com o Governador Dom Henrique de Meneses fui no descerco de Calecute, quando esteve cercada a fortaleza, com uma galé de que era Capitão, e também fui na destruição de Panané e de Coulete, onde se tomaram cem fustas com muita artilharia e se matou muita gente e assim servi no tempo de Lopo Vaz de Sampaio em começo de sua governança, me deixou na boca do Rio de Chale (um pouco a Sul de Calecute) na mesma galé e uma caravela guardando o rio, que não saíssem dele naus de mouros, que estavam carregadas de pimenta para Meca, e vendo-me assim o Samorim e mouros mandaram sobre mim cem fustas e navios de remos com muita gente e muita artilharia para me tirarem da boca do rio, com os quais navios pelejei um dia pela manhã até noite e com trabalho os lancei de mim, metendo alguns no fundo e matando-lhe muita gente com as espingardas, à vista do Samorim que estava na praia fazendo embarcar a gente de refresco em almadias (este combate terá ocorrido em 1526), e assim servi com Nuno da Cunha e fui sobre Diu (tentativa de conquista falhada, a 15 de Fevereiro de 1531), e assim no fazer da Fortaleza de Chale (em 1530) e na tomada de Baçaim (em 1533), e daí fui com Paulo da Gama para Malaca, e depois estive lá a mais do tempo com Estevão da Gama na guerra e na tomada de Anteritana (?) duas vezes e na derradeira me perdi com ele em uma fusta que se alagou com o tempo onde milagrosamente nos salvámos alguns, e assim também servi com o Vice-Rei Dom Garcia de Noronha e fui de Cananor onde ora vivo com quinze navios de remos, fustas e catures, para ir com ele aos rumes (em 1540), com a qual armada ele muito folgou e com a boa gente que lhe levava de Cananor, e também servi com o Governador Dom Estevão da Gama (filho segundo de Dom Vasco da Gama), e no seu tempo me proveu na Capitania de Cochim, após Dom Fernando de Eça, per e por vaga, em a qual estive quatro meses por vir provida por Vossa Alteza a Paio Rodrigues de Araújo, em a qual gastei mil cruzados, com dar de comer à gente, por ter más novas de que o Samorim queria passar a Cochim no Inverno com muita gente que para isso tinha junta, etc.
(....) Vai dizendo como tem filhos que vão servindo na guerra e que na idade em que se achava, se achou com Martim Afonso de Sousa na armada do pagode de Tremel, e no pagode de Coulão (Dezembro de 1537) onde foi ferido, e para todos estes serviços alega por testemunhas Dom João de Lima, António de Saldanha, Dom João de (....), Dom Aleixo de Meneses, Francisco Pereira de Berredo, Francisco de Sousa Tavares, António Ferrreira, Dom Gonçalo Coutinho, Rui de Brito Patalim, António de Miranda, e outros muitos que o muito bem conhecem. Pede-lhe (a D. João III) a Capitania de Cochim com as ilhas de Maldiva em sua vida, porque é já de sessenta anos, e que lhe tome seus filhos, e que um deles veio para o Reino em companhia de Dom Estevão da Gama, com o qual foi a Suez e ao Toro (no sopé do Monte Sinai, em Maio de 1541), onde o fizeram Cavaleiro (o Imperador Carlos V terá afirmado que invejava os que foram armados cavaleiros em tal feito).
 
Bibliografia Sumária
 
Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº 113, Setembro de 1963
Brocardo, Maria Teresa - Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, Fundação Gulbenkian, 1997
Castro, Sérgio Sodré de – O Brasão do Sodré Chefe, Armas e Troféus, 1991
Idem – Raízes de Vasco Gil Sodré, primeiro povoador da Ilha Graciosa, Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Líbris, 1994
Crónicas sobre a presença portuguesa na Índia (João de Barros, Gaspar Correia, Lopes de Castanheda, Diogo do Couto, Damião de Góis, etc.).
Faria, Manuel Severim de – Torre do Tombo, 1616, A.N.T.T. e Biblioteca Braamcamp Freire
Freire, Anselmo Braamcamp – Arquivo Histórico Português, vols V, VIII e X
Livros das Chancelarias Régias e do Registo Geral de Mercês, A.N.T.T.
Leitura Nova de D. Manuel, Livro da Beira, A.N.T.T.
Monterroyo, José Freire de – Nobiliário, 1743, B.N.L.
Monumenta Henricina, vols I, IV e XV
Pereira, Isaías da Rosa – Matrículas de Ordens da Diocese de Évora (1480-1483), Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1990
Pimentel, Luís Conde – Acerca do Povoamento da Ilha Graciosa, Boletim do Museu Etnográfico da Ilha Graciosa, 1986.
Monteiro, Saturnino - Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol I, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1989, 331p.
Relações das Naus e Armadas da Índia, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1985.
Silva, Isabel Morgado de Sousa e - A Ordem de Cristo (1417-1521), in Militarium Ordinum Anaclecta, n.º 6, 2002, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 503p.
Silva, Oriolando Correia da – Falando sobre a Graciosa, Boletim do Museu Etnográfico da Ilha Graciosa, 1986
Sousa, D. António Caetano de – Provas da História Genealógica da Casa Real, tomo II, II parte.
Subrahmanyam, Sanjay – A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1998
 
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009

Instituição e Confirmação do Morgado de Águas Belas

Este Rodrigo Álvares Pereira, 1º Senhor de Águas Belas, era irmão do Santo Condestável.

A partir do casamento de Violante Pereira com Francisco Sodré, em finais do séc XV ou inícios do XVI, começou um processo que levaria a que os Sodré Pereira se tornassem Senhores de Águas Belas, acumulando com o morgado dos Sodré de Santarém na região do Alviela.    

 
Dom Pedro pela graça de Deus Rei de Portugal e do Algarve. A quantos esta carta virem faço saber que Álvaro Fernandes escudeiro meu vassalo tutor de Rodrigo Álvares e de Pedro Álvares e de Diego Alvares criados do prior do Hospital me disse que ele e Gomes Martins do monte outrossim meu vassalo e João Afonso natural de Sevilha fizeram doações de parte de seus bens aos sobreditos cujo tutor ele é como se contém em escrituras públicas de tabeliães que tais são. Em nome de Deus amém saibam quantos esta carta de doação e de ordenação e de morgado virem que eu Álvaro Fernandes escudeiro vassalo do infante D. Pedro dou e outorgo por juro e herdade para sempre a vós Rodrigo Álvares filho de D. Álvaro Gonçalves de Pereira as minhas quintas de Águas Belas e de Vale de Orjaes com todas as herdades também de pão como de vinho assim arrotas como por arromper e com todos os casais e matas e defesas e com todo o senhorio e couto e honra e jurisdição e padroado da igreja de Santa Maria do dito lugar de Águas Belas e com todas as entradas e saídas e divisões e com todos seus usos e direitos e coisas e pertenças que às ditas quintas pertencem de direito e de facto também nos termos e divisões das ditas quintas como fora deles. E esta doação e ordenação faço por esta guisa que depois da nossa morte fiquem as ditas quintas e as coisas sobreditas ao primeiro filho lídimo que houverdes e assim fique sempre ao maior filho daqueles que de vós descenderem lidimamente. E quando hi houver filho lídimo a filha lídima não possa herdar como quer que maior seja. E quando hi não houver filho lídimo que então fiquem as ditas quintas e casais e pertenças delas e senhorio e jurisdição e padroado a Pedro Álvares irmão do dito Rodrigo Álvares e aos seus filhos e aos descendentes deles pela guisa que dito é de Rodrigo Álvares. E não ficando filhos lídimos do dito Pedro Álvares que fiquem a Diego Álvares e daí em diante fiquem pela linha direita aos descendentes dele. E se hi não houver descendentes fiquem a seus irmãos que venham da parte do dito D. Álvaro Gonçalves padre do dito Diego Álvares e haja os para sempre uma pessoa por morgado pela guisa que dito é de Rodrigo Álvares e de seus descendentes. E quando estes susoditos não houverem filhos lídimos que então as filhas maiores possam herdar assim como dito é dos filhos maiores lídimos e assim os seus descendentes deles. E ficando estas pessoas susoditas extintas e os descendentes delas que então fiquem as ditas quintas e casais e jurisdição e senhorio e padroado e pertenças delas ao Hospital de Santa Maria de Flor da Rosa. E esta doação vos faço por muito bem e muita mercê que me fez vosso padre e aqueles donde vindes e dou e outorgo eu dito Álvaro Fernandes a vós dito Rodrigo Álvares quer a vosso tutor ou criador poder cumprido para entrardes em tença e a posse das ditas quintas e coisas susoditas sem outorgamento de juiz ou doutra pessoa qualquer e sem outra nenhuma figura de juízo. E sobre tudo isto prometo e outorgo que esta doação e ordenação e morgado vá sempre por firme e estável e que nunca contra ela venha por nenhuma maneira a….damente que nunca a revogarei ainda que depois fizerdes ou disserdes algumas das coisas que dizem as leis por que as doações podem ser revogadas. E todas estas coisas e cada uma delas prometo por mim e por meus herdeiros de guardar e cumprir e de não vir contra nenhuma delas sob pena de quatro mil libras a qual pena pagada ou não a dita doação ordenação fique sempre firme e valedora feita a dita carta em bom jardim termo da Sertã seis dias de Setembro era de mil trezentos e noventa e quatro anos (é 1356, pois é preciso descontar 38 anos para transformar a era de César em era de Cristo).
Testemunhas: frei João Fernandes comendador da Flor da Rosa e João Afonso e Vasco Rodrigues e Gomes Martins escudeiros do prior do Hospital e outros. E eu Domingos Vicente tabelião de nosso senhor El-Rei na Sertã a isto presente e rogado fui e a mandado e outorga do dito Álvaro Fernandes esta carta da dita doação e coisas escrevi e meu sinal aqui fiz que tal é.
 
E para as ditas doações serem firmes e estáveis para sempre e não poderem ser desfeitas nem revogadas pediu-me por mercê o dito Álvaro Fernandes como tutor dos ditos moços e em seu nome deles que lhas confirmasse e outorgasse as ditas doações como em elas é conteúdo e lhes mandasse dele dar minha carta. E eu vendo o que me pedia e querendo fazer graça a mercê aos ditos Rodrigo Álvares e Pedro Álvares e Diego Álvares de minha certa ciência e de meu poder absoluto outorgo-lhes e confirmo as ditas doações que lhes assim os sobreditos Álvaro Fernandes e Gomes Martins e João Afonso fizeram das ditas quintas e coutos e honras e pertenças e direitos delas e as hei por firmes estáveis para sempre pela guisa que lhes pelos sobreditos foram dadas e outorgadas e é conteúdo nas ditas cartas das ditas doações. E se nas ditas doações e em esta minha carta de confirmação falecem algumas clausulas que de direito e de costume aí devessem ser postas para as ditas doações serem valiosas e estáveis eu as hei aqui por postas e escritas. E quero e mando que lhe não possa porem de fazer nenhum prejuízo. E que valham e sejam firmes e estáveis para sempre sem outro nenhum valimento. E em testemunho disto mandei dar aos sobreditos Rodrigo Álvares e Pedro Álvares e Diego Álvares esta minha carta selada do meu selo de chumbo dada em Elvas XX de Maio El-Rei o mandou por Lourenço Esteves seu vassalo Vasco Anes a fez era de mil trezentos e noventa e nove anos (é 1361, pois é preciso descontar 38 anos para transformar a era de César em era de Cristo).
 
Chancelaria de D. Pedro I, livro 1, folha 53v)
 
Ver anexo XXXII, pp 64-66 da obra “A Vila e Concelho de Ferreira do Zêzere” de António Baião (director da Torre do Tombo, etc…) Imprensa Nacional de Lisboa, 1918.
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Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

As Cartas de Armas de Bento e Francisco Sodré Pereira

 

Nos primórdios do século XIX foram concedidas cartas régias de brasão de armas de nobreza e fidalguia a dois membros, pai e filho, de um ramo segundo da família dos Sodré Pereira, Senhores de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), radicado no Rio de Janeiro desde a primeira metade do século XVII. Entretanto, o pai havia passado aos Açores e o filho já nascera em Ponta Delgada. 
 
Bento Sodré Pereira
 
Dom João por Graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné, e da Conquista e Navegação do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc. Faço saber aos que esta minha carta de brasão de armas de nobreza e fidalguia virem que Bento Sodré Pereira, natural do Rio de Janeiro, Sargento-mor reformado das ordenanças da cidade de Ponta Delgada da ilha de São Miguel, me fez petição, dizendo que pela sentença de justificação de sua nobreza a ela junta, proferida e assinada pelo meu Desembargador, Corregedor do Cível da Corte e Casa da Suplicação, o Doutor Francisco Xavier Carneiro e Sá, subscrita por Cipriano António Rodrigues Neves, Escrivão do mesmo juízo, se mostrava que ele é filho legítimo de Francisco Tavares França, natural da dita ilha, Alferes de cavalaria no regimento de Minas, e de sua mulher Dona Isabel Narcisa Sodré. Neto, por parte paterna, do Capitão João de Sousa Cabral e de sua mulher Maria Tavares França. Neto, por parte materna, de Agostinho de Lemos Rangel, Sargento-mor de milícias da dita cidade do Rio de Janeiro, de onde era natural, e de sua mulher Dona Isabel Sodré Pereira, a qual era filha única de Duarte Sodré Pereira que teve o foro de Moço-Fidalgo. Os quais seus pais e avós foram pessoas nobres das ilustres famílias de Sodrés e Pereiras, que neste Reino são Fidalgos de Linhagem, Cota de Armas, e Solar conhecido, e como tais se trataram com cavalos, criados, e toda a mais ostentação própria da Nobreza, sem que em tempo algum cometessem crime de lesa-majestade divina ou humana. Pelo que me pedia ele mesmo suplicante por mercê que, para a memória dos seus progenitores se não perder, e clareza de sua antiga nobreza, lhe mandasse dar minha carta de brasão de armas das ditas famílias, para delas também usar na forma que as trouxeram e foram concedidas aos ditos seus progenitores. E vista por mim a dita sua petição, sentença e documentos, e me constar de tudo o referido, e que a ele como descendente das mencionadas famílias lhe pertence usar e gozar de suas armas, segundo o meu Regimento e Ordenação da Armaria, lhe mandei passar esta minha carta de brasão delas, na forma que aqui vão brasonadas, divisadas e iluminadas com cores e metais, segundo se acham registadas no Livro do Registo das Armas de Nobreza e Fidalguia destes meus Reinos, que tem Portugal meu Principal Rei de Armas, a saber: Um escudo partido em pala. Na primeira, as armas dos Sodrés que são em campo azul, um chaveirão de prata firme carregado de três estrelas sanguinhas, entre três jarras de duas asas do mesmo metal. Na segunda pala, as armas dos Pereiras que são em campo vermelho, uma cruz de prata florida e vazia do campo. Elmo de prata aberto guarnecido de ouro. Paquife dos metais e cores das armas. Timbre dos Sodrés que é o chaveirão do escudo, e por diferença uma brica de prata com um trifólio verde. O qual escudo e armas poderá trazer e usar tão-somente o dito Bento Sodré Pereira, assim como as trouxeram e usaram os ditos nobres e antigos fidalgos seus antepassados em tempos dos Senhores Reis meus antecessores, e com elas poderá entrar em batalhas, campos, reptos, escaramuças, e exercitar todos os mais actos lícitos da guerra e da paz. E assim mesmo as poderá trazer em seus firmais, anéis sinetes e divisas, pô-las em suas capelas e mais edifícios, deixá-las sobre sua própria sepultura e, finalmente, se poderá servir, honrar, gozar, aproveitar delas em todo e por todo o tempo como a sua nobreza convém. Com o que quero e me praz que haja ele todas as honras, privilégios, liberdades, graças, mercês, isenções e franquezas que hão e devem haver os fidalgos e nobres de antiga linhagem, e como sempre de tudo usaram e gozaram os ditos seus antepassados. Pelo que mando aos meus Desembargadores, Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juízes, e mais justiças de meus Reinos, e em especial aos Reis de Armas, Arautos e Passavantes, e a quaisquer outros oficiais, e pessoas a quem esta minha carta for mostrada, e o conhecimento dela pertencer, que em tudo lha cumpram e guardem, e façam inteiramente cumprir e guardar como nela se contém, sem dúvida nem embargo algum que em ela lhe seja posto, porque assim é minha mercê.
O Príncipe Regente nosso Senhor o mandou por Manuel José Gonçalves, Escudeiro-Cavaleiro de sua Casa Real e seu Rei de Armas Portugal. Francisco de Paula Campos, Escrivão da Nobreza destes Reinos e suas Conquistas, a fez, em Lisboa, aos doze dias do mês de Outubro do ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e três, e eu Francisco de Paula Campos a fiz e subscrevi.
Rei de Armas Portugal
 
(Torre do Tombo: Cartório da Nobreza, Livro 7, fl. 35v)
 
Francisco Sodré Pereira
 
Dom João por Graça de Deus Príncipe Regente de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar em África, Senhor da Guiné, e da Conquista e Navegação do Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc. Faço saber aos que esta minha carta de brasão de armas de nobreza e fidalguia virem que Francisco Sodré Pereira me fez petição, dizendo que pela sentença de justificação de sua nobreza a ela junta, proferida e assinada pelo meu Desembargador, Corregedor do Cível da Corte e Casa da Suplicação, o Doutor Francisco Xavier Carneiro e Sá, subscrita por Cipriano António Rodrigues Neves, Escrivão do mesmo juízo, se mostrava que ele é filho legítimo de Bento Sodré Pereira, Sargento-mor da Cidade de Ponta Delgada na ilha de São Miguel, a quem se passou brasão de armas a 12 de Outubro do presente ano, e de sua mulher Dona Antónia Joaquina Sodré. Neto paterno de Francisco Tavares França, Alferes de cavalaria no regimento de Minas, e de sua mulher Dona Isabel Narcisa Sodré. Neto, por parte materna, de Manuel de Sousa Cordeiro Camelo e de sua mulher Dona Francisca do Espírito Santo Cordeiro Camelo. Os quais seus pais e avós foram pessoas nobres das ilustres famílias de Sodrés, Pereiras, Cordeiros e Camelos que neste Reino são Fidalgos de Linhagem, Cota de Armas, e Solar conhecido, e como tais se trataram com cavalos, criados, e toda a mais ostentação própria da Nobreza, sem que em tempo algum cometessem crime de lesa-majestade divina ou humana. Pelo que me pedia ele mesmo suplicante por mercê que, para a memória dos seus progenitores se não perder, e clareza de sua antiga nobreza, lhe mandasse dar minha carta de brasão de armas das ditas famílias, para delas também usar na forma que as trouxeram e foram concedidas aos ditos seus progenitores. E vista por mim a dita sua petição, sentença e documentos, e me constar de tudo o referido, e que a ele como descendente das mencionadas famílias lhe pertence usar e gozar de suas armas, segundo o meu Regimento e Ordenação da Armaria, lhe mandei passar esta minha carta de brasão delas, na forma que aqui vão brasonadas, divisadas e iluminadas com cores e metais, segundo se acham registadas no Livro do Registo das Armas de Nobreza e Fidalguia destes meus Reinos, que tem Portugal meu Principal Rei de Armas, a saber: Um escudo esquartelado. No primeiro quartel, as armas dos Sodrés que são em campo azul, um chaveirão de prata firme carregado de três estrelas sanguinhas, entre três jarras de duas asas do mesmo metal. No segundo quartel, as armas dos Pereiras que são em campo vermelho, uma cruz de prata florida e vazia do campo. No terceiro quartel, as armas dos Cordeiros que são em campo verde quatro cordeiros de prata postos em duas faixas. No quarto quartel, as armas dos Camelos que são em campo de prata três vieiras de azul realçadas de ouro postas em roquete. Elmo de prata aberto guarnecido de ouro. Paquife dos metais e cores das armas. Timbre dos Sodrés que é o chaveirão do escudo, e por diferença uma brica de ouro com um F negro. O qual escudo e armas poderá trazer e usar tão-somente o dito Francisco Sodré Pereira, assim como as trouxeram e usaram os ditos nobres e antigos fidalgos seus antepassados em tempos dos Senhores Reis meus antecessores, e com elas poderá entrar em batalhas, campos, reptos, escaramuças, e exercitar todos os mais actos lícitos da guerra e da paz. E assim mesmo as poderá trazer em seus firmais, anéis sinetes e divisas, pô-las em suas capelas e mais edifícios, deixá-las sobre sua própria sepultura e, finalmente, se poderá servir, honrar, gozar, aproveitar delas em todo e por todo o tempo como a sua nobreza convém. Com o que quero e me praz que haja ele todas as honras, privilégios, liberdades, graças, mercês, isenções e franquezas que hão e devem haver os fidalgos e nobres de antiga linhagem, e como sempre de tudo usaram e gozaram os ditos seus antepassados. Pelo que mando aos meus Desembargadores, Corregedores, Provedores, Ouvidores, Juízes, e mais justiças de meus Reinos, e em especial aos Reis de Armas, Arautos e Passavantes, e a quaisquer outros oficiais, e pessoas a quem esta minha carta for mostrada, e o conhecimento dela pertencer, que em tudo lha cumpram e guardem, e façam inteiramente cumprir e guardar como nela se contém, sem dúvida nem embargo algum que em ela lhe seja posto, porque assim é minha mercê.
O Príncipe Regente nosso Senhor o mandou por Manuel José Gonçalves, Escudeiro-Cavaleiro de sua Casa Real e seu Rei de Armas Portugal. Francisco de Paula Campos, Escrivão da Nobreza destes Reinos e suas Conquistas, a fez, em Lisboa, aos vinte e cinco doze dias do mês de Dezembro do ano do nascimento de nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e três, e eu Francisco de Paula Campos a fiz e subscrevi.
Rei de Armas Portugal
 
(Torre do Tombo: Cartório da Nobreza, Livro 7, fl. 56)
 
Quem consultar o “Arquivo Heráldico-Genealógico” do Visconde Sanches de Baena verificará que o autor se engana no ano da Carta de Bento Sodré Pereira colocando-a em 1802, quando o correcto é 1803.
 
No tocante à Heráldica é de realçar que, em ambas as cartas, o timbre imputado aos Sodrés, não é a albarrada de prata mas sim o chaveirão de prata carregado de três estrelas sanguinhas. Deste modo, seguiu-se a deturpação contemplada no “Tesouro da Nobreza”, armorial de 1788 da responsabilidade de Frei Manuel de Santo António, reformador do Cartório da Nobreza, que seria utilizado até ao fim da Monarquia. O timbre histórico original, com a albarrada de prata, está fixado no “Livro da Nobreza e Perfeição das Armas” (vulgo “Livro da Torre do Tombo”), armorial oficial c. 1523-34, mandado fazer por D. Manuel I, da responsabilidade do Bacharel António Godinho.
De notar, também, que as cartas chamam jarras às albarradas dos Sodrés, o que é de todo incorrecto, porquanto uma albarrada é uma bilha para água fresca e não se destina a flores.
Por último, registe-se que tanto o pai Bento quanto o filho Francisco recebem uma brica por diferença, o primeiro de prata e o segundo de ouro, o que reflecte o facto de, à época, a brica ser quase o único meio de diferenciação heráldica utilizado pelos Reis de Armas (por acaso, no caso vertente até estaria correcto desde que as armas de Bento tivessem recebido uma almofada na brica, porque estas lhe vêm pela avó-materna).
 
O processo de Francisco está integrado no Processo de Justificação de Nobreza de seu pai Bento Sodré Pereira (Torre do Tombo, Feitos Findos, Justificação de Nobreza, maço 7, nº 14). As alegações dos impetrantes relativas a ascendentes e estatuto social não assentam apenas em prova testemunhal. À inquirição judicial de testemunhas, o processo junta uma prova documental segura que transcrevo:
 
Saibão quantos este instromento dado e passado em pública forma do ofício de mim Escrivão com o theor de huma mercê que El Rei Nosso Senhor fez a Duarte Sodré Pereira de Mosso Fidalgo de sua Real Caza a qual me foi aprezentada pelo Capitão Bento Sodré Pereira que seu theor e forma he o seguinte:
 
Eu El Rei faço saber a vós Dom João da Silva Marquêz de Gouvêa Conde de Portalegre meu muito prezado sobrinho do meu Concelho de Estado e meu Mordomo mor, que hei por bem e me praz fazer mercê a Duarte Sodré Pereira natural do Rio de Janeiro, filho de Francisco Sodré Pereira meu Mosso Fidalgo e neto de Duarte Sodré Pereira de o tomar no mesmo foro de meu Mosso Fidalgo com novecentos reis de moradia por mêz e hum alqueire de cevada por dia paga segundo ordenança e he o foro e moradia que pelo ditto seu pai lhe pertence. Mando-vos que o façaes alistar no Livro da Matrícula dos Moradores de Minha Caza com o título dos Mossos Fidalgos, coma dita moradia e cevada. Jorge Arnaut o fez em Lisboa a três do mêz de Janeiro de seiscentos e oitenta e seis. Manoel Leitão de Andrada a fez escrever. Rei. Marquez Mordomo mor. Praz a Vossa Majestade fazer mercê a Duarte Sodré Pereira natural do Rio de Janeiro, filho de Francisco Sodré Pereira meu Mosso Fidalgo e neto de Duarte Sodré Pereira de o tomar mo mesmo foro de meu Mosso Fidalgo com novecentos reis de moradia por mêz e hum alqueire de cevada por dia paga segundo ordenança e he o foro e moradia que pelo ditto seu pai lhe pertence. P. do Marquez Mordomo mor. Registado no Livro quinze da Matrícula a folhas oitenta e huma e pagou cento e cincoenta reis. Lisboa vinte e quatro de Janeiro de mil seiscentos oitenta e seis. José Rebelo.
Fica assentado e pagou secenta reis. Jerónimo Soares.
 
Concorda com a própria mercê que fielmente tresladei da própria a que me reporto em poder do aprezentante de que assinara com o qual este corri e conferi e assinei e publico e razo nesta Ponta Delgada aos treze de Abril de mil setecentos e noventa. Eu Alexandre Jozé de Barros tabellião público de nottas e escrivão do judecial o escrevi. Lugar do sinal público. Em testemunho da verdade. Alexandre Jozé Ramos. Recebi a própria mercê. Bento Sodré Pereira.
 
Segue-se a Justificação do Doutor António Luiz Borges Rebello da Silveira, Juiz do Cível, etc… na cidade de Ponta Delgada, Corregedor e Provedor da comarca das ilhas de São Miguel e Santa Maria, e respectivo Intendente da Polícia, etc… reconhecendo os sinais do tabelião Alexandre José de Barros, com data de 15 de Abril de 1790.      
 
Documentos idênticos ao transcrito foro de Moço-Fidalgo de Duarte Sodré Pereira foram passados no mesmo dia a três dos seus irmãos (José, João e Diogo), conforme se vê no Registo Geral de Mercês, D. Pedro II, livro 2 fls 286 e 286v (código PT-TT-RGM/B/7424; 5739; 11264; 11781). Em diversas obras, das quais apenas menciono o título de Sodré em “Primeiras Famílias do Rio de Janeiro”, de Carlos G. RheinGantz; “A Inquisição no Rio de Janeiro no começo do Século XVIII”, de Gilberto Sodré Carvalho; “Vínculos de Fogo”, de Alberto Dines; e a folha 306 do microfilme 610 da Torre do Tombo, fica evidente que os dizeres do documento antedito “Duarte Sodré Pereira natural do Rio de Janeiro, filho de Francisco Sodré Pereira meu Mosso Fidalgo e neto de Duarte Sodré Pereira” se referem a Francisco Sodré Pereira, fundador do ramo e patriarca dos Sodrés no Rio de Janeiro, filho segundo de Duarte Sodré Pereira, Senhor de Águas Belas, sua terra natal.
Esta ligação genealógica escapou a António Bueno e Carlos Barata no título Sodré Pereira do seu monumental “Dicionário das Famílias Brasileiras”, de 2000, embora mencionem as cartas de armas de Bento e Francisco, porque não acederam aos documentos do Processo de Justificação de Nobreza, mas apenas às deduções genealógicas constantes das cartas e transcritas por Sanches de Baena (aliás, até reproduzem o erro de datar a de Bento no ano de 1802).
 
publicado por Eu às 22:41
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Testamento de Duarte Sodré, 29 de Fevereiro de 1496

 

(Testamento feito em Montemor-o-Novo no último dia de Fevereiro de 1496, uma 2ª feira dia 29, redigido por Rui de Pina, talvez o que veio a ser cronista a guarda-mor da Torre do Tombo).
(Este texto é o do traslado que se fez em Santarém, a 14 de Setembro de 1524, a pedido da Abadessa do Mosteiro de Santa Clara)
(ADSTR, Convento de Santa Clara de Santarém, é esta referência do testamento no artigo “Ensaio sobre a origem dos Resende/Sodré” da revista Armas e Troféus de 2008))
(Eu tenho fotocópia do mesmo testamento existente no Livro das Escrituras e Partilhas, Testamentos, etc. 1465-1573, guardado no Arquivo Distrital de Santarém)
 
Trelado da Cedolla de Duarte Sodre
Porque a mais certa cousa que temos he morer e a menos certa a ora da morte portanto eu Duarte Sodre veador da casa d’el Rei Dom Manuel o primeiro noso senhor e alcaide moor das vyllas de Tomar e Sea estamdo em meu verdadeyro siso e proprio emtemdymento por descarguo de mynha comciemcia e por certidam de mynha fazenda aseceguo e comcordya de meus filhos faço esta cedulla que eu aprovo e ey por firme como o mais solene testamento que de direito se pode fazer e por ela revoguo todollos outros que ate quy tevesse feytos e quero que esta soo valha porque esta e mynha deradeyra vontade.
Primeyramente quando Noso Senhor Deus ouver por bem d’aquabar mynha vida eu d’aguora pera emtaom protesto e afirmo que mouro e morerey fiel christom e na fee verdadeira de Noso Senhor Jhesu Christo e que tenho e creyo fyrmemente ho que tem e cree a Samta Madre Jgreja de Roma e com esta inteyra fee emcomendo principallmente mynha allma a Jhesu Christo nosso verdadeyro Deus e Senhor e a elle peço com toda (riscado: solenidade) omylldade e inteyra devaçam que na lembrança de sua santa payxaom queyra aver com ella myserycordya pera lhe dar a groria e descamso que de sua imfimda pyedade espero e não a pena que meus gramdes pecados merecem e tomo ante seu inmenso poder por avoguada de minhas fraquezas a bem avemturada Vyrgem Maria sua madre nossa senhora a que humyllmente peço que por sua pyedade e minha devaçam ho queyra ser.
Mamdo que quamdo for meu falecymento seja meu corpo emterado em alguum mosteyro se o ho ouver no luguar ou jumto com elle e seja amte o altar de Nossa Senhora e pera yso se compre a dita sepultura como he de costume e se nom ouver mosteyro seja em algua igreja da avocaçom de Nossa Senhora e amte ho seu altar e ysto se emtenda se eu nom falecer em Tomar ou tam jumto com elle que me posam beem la levar porque neste caso mamdo que me sepultem demtro no comvemto porque sou profeso e em quallquer luguar me poram hum ataude sobre a mynha cova cuberto de pano da doo como se aos semelhantes acostumam.
No dya de meu falecymento mamdo que me façam ho oficyo dos mortos e me levem as tochas e ofertas que parecer bem a pesoa que em mynha casa a ese tempo tever moor carguo o quall se acomcelhara sobre yso com meus amyguos pera que faça ho devydo e não demasyado e me dyguaom alguas mysas nese dya rezadas e hua soo camtada e sayam sobre mym com respomso.
Item mamdo que sobre mym lamcem hua campanam com mynhas armas e nella se ponha letra que faça memorya de mym e de cujo criado fuy que he el Rey Dom Manuell noso senhor.
Item mamdo que ho meu testamemteyro mamde fazer saymento por mym comforme ao emterramento e seja ao tempo e no modo e maneyra que lhe parecer bem porque tudo leyxo a sua deseiçam.
Mamdo que me dygaom tres trymtayros emçarrados e por mynha alma dem por cada huum myll e quinhemtos reis e sejam dytos se for pocyvell na igreja omde eu for emterado ou se diguam em alguum outro mosteyro de boos homes relygyossos ou omde ao meu testamenteyro bem parecer e lhe for poçyvell.
Leyxo por testamenteyro de mynha alma e por tytor de meus fylhos todos a Amtaom Sodre meu irmaoom ao quall peço por merçe e pello amor de Deus e por a gramde afeiçam e amor que me sempre teve que se emcaregue deste meu testamento e de todallas cousas que se nelle comtem porque eu todas e cada hua dellas careguo sobre elle e semdo caso que elle per quallquer maneira nom posa leyxo o dito carguo inteyro ao senhor Joham da Silva senhor da Chamusca e d’Ulme a que peço por mercee que ho tome e o cumpra por servyço de Deus e pera bem e descarguo de mynha alma asy e pella maneyra que ho leyxo e ordeno a meu irmão.
Outrosy leyxo tres fylhos meus machos e tres filhas femeas e o prymeyro dos filhos he frey Joham Sodre frade de Sam Francisco da observancia e a este pois escolheo a mylhor parte que he servyr a Deus leyxo mynha bemção e a de Deus em que acabe a seu santo servyço.
Francysco Sodre que he o segundo filho a este soo em solydo leyxo ho meu casall que he no regengo d’Alvyella e o outro meu casall no regemguo da Tojosa aas Baroquas d’Aradinha dos quaes elle soo aja as remdas e direitos e asy lhe leyxo mais a elle soo as mynhas casas que sam em Santarem ao pee da calçada de Guayam que fycaram de meus padres com seu quymtall d’arvores e laramgeyras e mais huum pardyeyro que hy comprey pera ajuntar com ho dyto quymtall os quays casays e casas e quymtall leyxo ao dyto meu filho Francysco Sodre pera elle e pera todolos que dele decenderem segundo aqui decrararey por condyçam de morguado pera nom se poderem vender nem emlhear nem partyr somente quero que elle ou seus sucessores possam trocar os dytos casays por outra cousa de rayz de ygual renda de paom quando lhes bem vier porquanto os dytos casays estam em reguenguo e sera a tall permudaçam pera bens do termo de Santarem fora de regenguo os quais bens que assym leyxo ao dito meu fylho por seu falecimento vyram ao seu filho mayor per idade que fycar delle e se nom tever fylho baraaoom venha entaom a fylha que delle fyquar mayor e se não tever fylho baraaoom nem fylha neste caso ho dyto morguado venha a Manuel Sodre meu fylho se for vyvo e se não for vyvo venha a seus fylhos e fylhas asy como aquy aponto e não tendo os dytos meus fylhos baarons nem leyxando desy fylhos nem fylhas neste caso quero e mando que o dyto morguado venha a qualquer parente meu mais cheguado que se chamar de mynha alcunha e apelydoo que he Sodre e desy em dyante aquelle ho herde e aja e seus fylhos e sucessores polo modo e maneyra que ouveram de herdar meus fylhos e aquy he decrarado.
Mando e ordeno que ho que ouver d’aver e erdar ho dyto morgado se chame sempre da dyta alcunha de Sodre e se não se chamar que ho perqua e o soçeda loguo outro parente mais chegado que se chamar.
Item mando e ordeno que asy meus filhos e decendentes que pera sempre sucederem e tyverem o dyto morguado mandem dyzer cad’ano por mynha alma e mynha memorya hua mysa cantada dento na Igreja de Santa Cruz de Santarem por dia de Santa Maria de Setembro e a todos e a cada hum rogo e emcomendo por mynha bençam que o cumpram asy e em caso que algum o não queira ou não possa cumpryr nem por isso quero que perca o dyto morguado mas que o tenha como se tudo cumprisse mas este encarguo he tam pequeno e a comfianca com que o leyxo tamanha que espero que isto e muito mais folgaram de faser por meu descarguo e asy roguo peço e encomendo a todos meus herdeiros e sucessores que das suas terças despois de pagadas as cousas necessarias e divididas sempre folguem d’acrescentar neste morguado algua cousa pera compensação e acrescentamento desta linhagem e memorya della qua nesta esperança lhe dey este começo tam pequeno qua lho nom pude dar nem leyxar outro mayor.
Manuel Sodre meu filho terceyro he tomado del Rey nosso senhor este desejo que aprenda no estudo e siga as letras se for pera ellas desposto e pera isso peço e asy o pedira meu testamenteyro a el Rey nosso senhor que pera isso lhe mande dar no estudo sua moradya e lhe faça mercee como a fylho de quem sempre viveu e morreu em seu servyço e aos dytos meus fylhos encomendo e mando per minha bençam que sempre sirvam bem e lealmente e sua alteza qua se o asy fizerem seguyndo sua alteza e alto pryncipe e de muyta grandeza nom lhes posso leyxar mais certa herança que leyxalos pegados e juntos as virtudes e bondades de tal rey.
E eu som alcayde mor de Tomar e da villa de Seaa por el Rey nosso senhor e isto ouve de sua alteza por satisfaçam de meus serviços que foram sempre taaees e com tamto amor que o galardaom delles nom devia d’acabar com mynha vyda e portanto peço a el Rey nosso senhor que a meus fylhos ou a hum deles como sua alteza mais quiser queyra fazer merce das dytas alcaidarias mores ou lhas reparta como ouver por seu servyço.
Item Ynes de Rezemdee e Lyanor Sodre mynhas fylhas que estam em Santa Crara de Santarem com mynha irmaã Crara Sodre quero e lhes encomendo e mando que sejam freyras da dyta ordem e syrvam nela a Deus porque nelle he todo o bem e descanso e emcomendo-as há dita mynha irmaã que olhe põe ellas como virtuosa e boaã irmaã que sempre foy minha.
Item a outra mynha fylha que se chama Ysabell Sodre que esta com mynha ama Isabel Vasquez quero e mando que tambem seja freyra e desejo mays no mosteyro de Jhesus d’Aveyro que em outro algum e pera yso peço a el Rey nosso senhor d asy peço a meu testamenteyro e amyguos que lho peçam poys nom me fyqua outra cousa com que as leyxe emparadas se nom meus servyços e o galardam delles que sua alteza queyra fazer que a tome no dyto mosteyro e nelle lhe dar algua esmolla com que se onestamente mantenha.
Item Cateryna Nunes (no original lê-se claramente Nunes e não Eanes como escreve quem publicou a leitura paleográfica deste testamento) may de meus fylhos fique com elles e a elles leyxo e emcomendo por mynha bençam que sempre lhe façam bem como he rezam se lho Deus e el Rey fizerem como espero.
Item mando que de mynha fazenda dem a dyta Ysabel Vaz minha ama dez myl reis e a sua fylha Vyolante deem seys myl reys em dynheyro e duas camas de roupa dessa comum que ha em mynha casa e mays lhe leyxo as mynhas casynhas que comprey e estam junto com as casas d’Anrique de Sousa e esto pera seu casamento pelo serviço que ambas me fyzeram.
A Marya Fernandez minha cryada pello serviço que me fez leyxo seis mill reis e a Joham de Tramquoso por seu serviço tres mill reis e a Diogo Carvalho que he casado em Pernez por serviço que me fez seis mill reis e a Amryque Diaz morador em Vylla Framqua termo de Lynhares por serviço que me fez leyxo quatro mill reis.
Lopo d’Almeyda meu page quero que aja ho meu cavallo fouveyro e peço a el Rey nosso senhor que ho tome.
A Luis d’Almeida seu yrmão meu page leyxo ho cavallo pequeno murzello e peço a Sua Alteza que os queyra tomar por seus escudeyros porque são bons e de bom a lynhagem.
A Alvaro de Bayros por serviço que me fez leyxo oyto mill reis e a Diogo Anryquez por serviço quatro mill reis.
Joham de Tomar meu escravo fyque com Francisco Sodre meu filho damdo-lhe por sy outro espravo de doze ate dezaseis anos quero e mamdo que seja ho dito Joham Tomar foro e Margaryda mynha escrava fique tambem ao dito meu filho Francisco Sodre pera ho curar e servyr e Pero d’Evora meu espravo fyque a Manuell Sodre meu filho pera ho servir e o meu cavallo grande e hua azemalla a mylhor fiqye a meu filho Francisco Sodre pera se servyr dellas na Corte e omde lhe compryr. Item a cada hua das mynhas fylhas que estam em Samta Crara mamdo que dem trymta myll reis pera suas necesidades os quaees sejam emtreguees a dita mynha irmã como a sua curador pera fazer delles ho que vyr que lhes mylhor vem e mais leyxo a ambas as ditas mynhas filhas hua boõa cama de roupa liympa scilicet colchões e cocedra e cobertores e boons lemçoees e travyceyro e almofada (…) mylhor que ouver em mynha casa. Item todas mynhas armas de quallquer sorte e calydade que forem leyxo somente a meus filhos pera que ambos as partam irmaãmente e os meus vestydos que fyquam mamdo qe se vendam pera paguamento destas cousas que aquy leyxo ordenadas e se alguum de meus cryados quyser alguas peças delles dem-lhas em descomto do que a cada huum aquy leyxo por aquelles preços que forem rezoados e dem a meus filhos a mynha cama compryda com esparanell e alguas arquas que lhe comprirem pera guarda de suas cousas e todo outro movell e cousas se vendam pera paguamento destas cousas.
Devo a mynha irmã Crara Sodre alguum dinheiro que lhe sera paguo segundo se achara per meu escrito ou ella dyxer per sua verdade e comciemcia e a meu irmão Amtam Sodre tambem devo dinheiro elle ho tome de mynha fazenda se nom mostre meu asinado.
Devo aos erdeyros de Latam myll reis de pano que lhe tomey e tem meu asynado e devo a Abram Bracar de Lyxboa myll e setemta reis de que tem meu asynado e devo nas moradyas aos trantadores algum dinheiro do quall peçoo a el Rey Nosso Senhor que me faça merce e se ho nam fizer veja-se ho que dano e pague-se de mynha fazemda.
E a Jeronymo meu azemell devo de suas soldadas algum dinheiro e do tempo que me servyo e do que lhe tenho dado se achara certidam por esprito na mynha bueta que aquy traguo comygo de que tem carguo Lopo d’Almeyda veja-se todo bem e o que lhe dever paguem-lho inteyramente.
Duarte filho de Joham da Sertam fyque com Francisco Sodre meu filho ao quall emcomendo por mynha bençam que lhe faça bem.
E pera pagamento destas dyvydas e leguados leyxo a mynha prata que tenho de que tem carguo Lopo d’Almeyda e asy das outras cousas que traguo comyguo e a dyta prata he esta .scilicet. hum bacyo d’agoar as mãos dourado que pesa seis marcos e duas allbaradas que pesam ambas cimquo marcos e duas taças pycadas e douradas que pezam ambas cimquo marcos e duas escudellas que pesam ambas dous marcos e hum saleyro de hum marco e meio e nove collares de prata e hum copo que pesa hum marco.
Item leyxo as mynhas remdas do anno que se começou no Sam Joham do anno pasado de novemta e cymquo annos e se acabara no Sam Joham deste anno de noventa e seis de que alguas paguas se am-de fazer por comdiçam d’arendamento pera ho Aguosto do dyto anno de que se acharam as escreturas e arrendamentos dyso em hua mynha bueta que he em poder da dyta Ysabell Vasquez mynha ama e o que destas remdas hos remdeyros mostrarem per meus asynados que me paguaram levem-lhe em comta e o mais paguem segumdo sam obryguados e asy a dyta mynha ama dará comta de pam e vynho e roupa e de todallas outras cousas de mynha casa de que tem carguo e tudo fycara em sua verdade e comcyemcya porque ella he tall e o foy sempre que em tudo dyra e fara verdade.
Item Ysaque Romdim judeu morador em Tomar me he obriguado em trymta e tamtos myll reis de huas cavalarias que se obrigou a recadar por mym per hua escretura dos quaes a nos tem entregue alguum dinheiro de que lhe dey conhecymento e este se lhe leve em comta e o outro pague e desta cousa sabe bem Christovom Rodriguez meu cryado que fyquara dysto por solycytador e as escreturas que nysto toquam se acharam na dita bueta que tem mynha ama.
Item fiquam as mynhas remdas de Sea que sam vymtoito mill e trezemtos reis de que nom ouve ate fyntura deste algum pagamento estes se arrecadem e as escreturas e arrendamento estam na dita bueta.
Bryatiz Afomso mynha caseyra de Santarém recebeo nove moyos de tryguo e de cevada pouquo mais ou menos e asy (…) alguas cousas de mynha casa de que acharão hua enmenta e roll na bueta que traguo comyguo da comta de tudo e o entregue.
Item Peralta carpynteyro de Tomar tem hum bacyo de prata que pesa dous marcos a penhor de dous mill e oitocentos reis tyrem-lho ou elle torne a demasya e todos sabem ysto.
Item tenho a mynha meã anada pagua que sam vymte e nove mill reis de que acharam a carta na mynha bueta que he em Tomar em poder de mynha ama e ey aymda de paguar a quarta parte per aforar hos meus beens de raiz de que paguos em começo dez cruzados d’ouro e os mais se eu falecer ante de os acabar de paguar paguem-nos meus erdeyros.
Item mamdo que me emterem no meu mamto bramco que eu sempre traguo comygo como a nosa regra hordena e mamda a quall cedulla na forma e maneira que vay eu roguey e pedy a Rui de Pyna cavaleyro da Casa d’el Rey Noso Senhor e seu escprivão das comfrymações (jura…) esprevese como espreveo peramte mym e de mynha palavra ao quall pedy que asynase aquy comyguo por mor firmesa feyta em Montemoor ho Novo a deradeyro dia de Fevereyro anno do nascimento de Nosso Senhor Jhesus Christo de j iiijc lRbj annos.
publicado por Eu às 21:02
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Domingo, 13 de Dezembro de 2009

Duarte Sodré, Alcaide-mor de Tomar, falecido a 25 de Agosto de 1500

 

  • Foi um dos mais importantes freires cavaleiros da Ordem de Cristo da segunda metade do século XV.
  • É bem possível que tenha nascido durante o reinado de El-Rei D. Duarte, entre 1433 e 1438, o que justificaria o nome próprio que lhe deram de Duarte.
  • Muito provavelmente, era natural de Santarém, pois os seus pais aí viviam numa casa ao pé da calçada do Gaião, que Duarte herdou. Sabe-se que era uma casa grande com um quintal de árvores e laranjeiras.
  • Sua mãe foi Inês Sodré, talvez nascida por volta de 1414.
  • O seu apelido de Sodré e respetivo brasão veio-lhe pelo avô materno, que uma fonte fidedigna, mas posterior, diz ser João Sodré e refere-o como Fidalgo  da Casa de D. Afonso V. Este João é provavelmente o mesmo que Zurara apresenta como Cavaleiro em Ceuta antes de 1418, pelo que deve ter participado na sua conquista em 1415.  .
  • Duarte não seria o primogénito mas sim um filho segundo. Seu pai, Gil Pires de Resende, exerceu diversos cargos ao serviço da Coroa, nomeadamente Contador régio nos almoxarifados de Santarém e Abrantes; Vedor-mor das obras régias de Almeirim; Procurador régio; Escrivão da sisa e dízima régia de diverso pescado do rio Tejo; e instituiu uma capela na Igreja de Santa Cruz de Santarém. Por linha feminina, descendia de Martim Vasques de Resende, a quem El-Rei D. João I, a 21 de Setembro de 1386, confirmou a posse do couto de Resende que lhe vinha de seus antepassados.
  • Em 1465, era Escudeiro da Casa do Infante D. Pedro (filho de D. Pedro, antigo regente do Reino e Duque de Coimbra, morto na Batalha de Alfarrobeira, a 19 de Maio de 1449), ex-Condestável do Reino e efémero Rei da Catalunha de 1464 a 1466.
  • A 06 de Junho de 1466, o Rei D. Afonso V perdoou-lhe o degredo na vila de Santarém, sendo Escudeiro da Casa do Infante D. Fernando, falecido em 1470 (Duque de Viseu e de Beja, Mestre da Ordem de Cristo, herdeiro do Infante D. Henrique “o Navegador”, seu tio. Foi o pai do futuro Rei D. Manuel), tendo pago 200 reais para a Piedade. Ainda desconheço qual a razão para esse degredo.
  • Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador de Santa Ovaya do Juncal, antes de 1475.
  • A 21 de Março de 1475, o Rei D. Afonso V privilegiou-o, a pedido do Duque (D. Diogo), ao conceder-lhe licença para arrendar a Comenda de Santa Ovaya do Juncal, da qual então já era Comendador.
  • A 21 de Junho de 1476, o Rei D. Afonso V confirmou o privilégio a Duarte Sodré, Comendador, para todos os seus caseiros e lavradores.
  • Vedor da Casa do Duque de Viseu, D. Diogo, que era o Mestre da Ordem de Cristo.
  • Por carta de 23 de Agosto de 1486, registada na Chancelaria do Rei D. João II, onde é designado como Cavaleiro da Casa Real, o Príncipe Perfeito autoriza-o a constituir um morgado nos reguengos de Tojoza e Alviela (termo de Santarém) com a obrigação dos sucessores seguirem o apelido Sodré.
  • No seu testamento, Duarte expõe o modo de sucessão nesse morgado e assume-se como fundador de uma linhagem iniciada com este morgado, cujos descendentes devem fazer por acrescentar e conservar a memória da sua origem.
  • Recebeu do Rei D. João II, a 10 de Novembro de 1492, a doação de certos bens e herança no lugar de Romão, no almoxarifado da Guarda, tomados a três moradores locais.
  • Vedor da Casa do Duque de Beja, futuro Rei D. Manuel, e Mestre da Ordem de Cristo, já o era a 10 de Novembro de 1492, passando a Vedor da Casa Real quando este subiu ao trono em 1495.
  • A 26 de Janeiro de 1493 já era Comendador e Alcaide-mor de Tomar (sede da Ordem de Cristo).
  • Provedor das capelas do Infante D. Henrique (o Navegador) com 7 marcos de prata de ordenado, desde o momento em que foi designado Alcaide-mor de Tomar, por inerência a este cargo decorrente de disposição testamentária do Infante.
  • Comendador da Cardiga, em data posterior a 26 de Janeiro de 1493 (neste dia ainda pertencia a Heitor de Sousa), uma das mais importantes da Ordem de Cristo.
  • Pelo menos desde 1494, foi Alcaide-mor de Seia.
  • Fez testamento em Montemor-o-Novo, a 29 de Fevereiro de 1496, o qual foi redigido por um tal Rui de Pina, Cavaleiro da Casa Real e Escrivão das confirmações, que bem podia ser o futuro Cronista e Guarda-mor da Torre do Tombo, autor de uma crónica de El-Rei D. João II.
  • No testamento manda que lhe façam uma campa “com minhas armas e nela se ponha letra que faça memória de mim”. Pede para ser enterrado ante o altar de Nossa Senhora.
  • A 07 de Agosto de 1500, documento refere-o como Fidalgo régio.
  • Faleceu a 25 de Agosto de 1500.
  • Está sepultado junto ao altar-mor da Ermida de Nossa Senhora do Monte, em Santarém, tendo a sua lápide, epitáfio, escudo de armas pleno de Sodré, ladeado de espada e lança-pendão.
  • Epitáfio “Aqui jaz o muito honrado Duarte Sodré que foi veador da caza D’ El Rey D. Manuel e alcaide mor das vilas de Tomar e Sea e comendador da cardiga o qual descende e vem da linhagem da caza do Sodrea que he caza de grandes senhores do Reyno de Inglaterra e finou-se aos 25 dias de Agosto de mil e quinhentos.” (*)
  • Segundo escreve o seu filho Manuel, terá morrido pobre devido à sua generosidade e, enquanto viveu, era muito valido junto do Rei e conhecido no reino.
  • Os seus descendentes que foram Senhores de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), e usavam o apelido Sodré Pereira, eram considerados os chefes do nome e armas de Sodré, até porque também detinham o morgado por ele instituído em 1486.
  • Conforme diz no seu testamento, teve seis filhos legitimados de Catarina Nunes (os cavaleiros da Ordem de Cristo só puderam casar a partir de 20 de Junho de 1496 por autorização do Papa Alexandre VI), que chamaram João Sodré (frade franciscano), Francisco Sodré, Manuel Sodré, Inês de Resende (freira), Leonor Sodré (freira), Isabel Sodré (freira). Refere o seu irmão Antão Sodré (testamenteiro) e a sua irmã Clara Sodré (freira)
  • Integrando o seu morgado, que passou para o segundo filho Francisco, deixou dois casais, um no reguengo do Alviela e outro no reguengo da Tojosa, a sua casa em Santarém e alguns direitos e rendas.
  • Nomeia os seus pajens e outros servidores e os seus escravos, a todos fazendo mercês, os seus credores e os devedores para que se saldem as contas.
  •  Da enumeração de bens que manda distribuir fica-se com a impressão que pouco terá ficado para Francisco e Manuel e daí ambos terem partido para a Índia, em 1508, e por lá morrido.
  • As suas armas seriam divididas pelos seus dois filhos (Francisco e Manuel). O “cavalo grande” ficaria para o morgado Francisco. Ao filho primogénito, o franciscano João, deixa a sua bênção.
  • No testamento, afirma-se Alcaide-mor de Tomar e da vila de Seia, e Criado de D. Manuel.
  • Por disposição testamentária, pede para ser enterrado envergando o seu manto branco de freire cavaleiro da Ordem de Cristo que vestia diariamente, conforme ordenava a regra da Ordem.

(*) Há indícios de que os dizeres na campa relativos a vir de uma Casa do Sodrea, de grandes senhores ingleses, seja um empolamento dos seus descendentes, uma vez morgados, para enobrecerem as suas origens, e que, na realidade, o apelido Sodré derive de uma alcunha criada em Portugal, talvez na segunda metade do séc. XIV.   

 
publicado por Eu às 19:35
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