Sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

Vicente Sodré, o 1º Capitão-mor do Mar da Índia (1465? - 1503)

 

 

Vicente Sodré partiu para a Índia a 10 de Fevereiro de 1502, como sota-almirante (sota-capitão) da armada comandada por seu sobrinho D. Vasco da Gama, pois estava determinado que substituiria o almirante em caso deste falecer, e morreria num naufrágio sob um tufão, junto às ilhas Curia Muria (Omã), em finais de Abril ou inícios de Maio de 1503.
Decorre, assim, o quinto centenário da morte daquele que foi o primeiro capitão-mor do Mar da Índia (basicamente, o Mar Arábico), recebendo o comando da primeira armada portuguesa que não deveria regressar a Portugal, mas antes instalar-se na Índia e operar a partir de uma base permanente na costa do Malabar, em Cochim, e também apoiando-se em Cananor.
O que me proponho é, precisamente quinhentos anos depois, efectuar o que julgo ser a primeira síntese do que se conhece da vida desta personagem histórica, juntando material disperso por documentação diversa, revelar elementos da sua genealogia, e descrever e criticar a sua actividade na Índia, relativamente à qual os principais cronistas da época divergem.
A mais antiga referência que encontrei diz respeito a um facto ocorrido no domingo de 05 de Novembro de 1480. Nesse dia, Vicente Sodré recebe a primeira tonsura, na vila de Sines, diocese de Évora. O bispo de Safim presidiu à cerimónia por delegação do bispo de Évora. A matrícula de ordens da diocese de Évora de 1480 diz-nos que Vicente é filho legítimo de João Sodré e de Isabel Serrã, residentes em Lisboa na paróquia de Santa Maria Madalena. Nessa época, a prima tonsura era dada a jovens até aos 15 anos. Ora o seu sobrinho Vasco da Gama recebeu a prima tonsura na mesma cerimónia e teria 11 ou 12 anos de idade, logo Vicente, provavelmente, já teria 14 ou 15 anos. Desta sorte, admito que terá nascido à roda de 1465.
A matrícula também nos informa que Vicente Sodré era “curial” do duque de Viseu, D. Diogo, o grão-mestre da Ordem de Cristo, morto às mãos do seu cunhado, el-rei D. João II, em Setúbal, a 23 de Agosto de 1484. Assim, em jovem, viveria habitualmente na corte daquele titular, a quem servia. Após a morte de D. Diogo, o novo grão-mestre da Ordem de Cristo passou a ser o seu irmão e futuro rei D. Manuel, então duque de Beja.
Em documento da Ordem de Cristo datado de 26 de Janeiro de 1493, existente na Torre do Tombo e referido na dissertação de doutoramento de Isabel de Sousa e Silva, é revelada a sua condição de cavaleiro e comendador daquela Ordem, concretamente da comenda de Maninhos em Idanha. Do ano seguinte, subsiste um novo documento referente a Vicente Sodré. Trata-se de uma carta de D. Manuel, ainda como duque de Beja, de 08 de Julho de 1494, na qual a gente principal do Funchal (juizes, oficiais, fidalgos, cavaleiros, escudeiros e homens bons) é solicitada a colaborar com Vicente Sodré na construção ou reparação de baluartes, cerca e outras defesas da ilha da Madeira. Ele fora enviado com regimento para esse efeito e é designado por fidalgo da casa real. D. Manuel recebera ordem de el-rei D. João II para providenciar o conserto das defesas do Funchal e, por sua vez, incumbira Vicente Sodré de chefiar a missão que orientaria e fiscalizaria as obras.
No livro do lançamento dos pagamentos feitos no ano de 1490 aos cavaleiros, escudeiros e besteiros da guarda da câmara e dos ginetes de D. João II, transcrito por Bramcamp Freire, consta o nome de seu irmão, Brás Sodré, como cavaleiro daquele corpo de escol, auferindo 1.550 reais por mês.
Datada de 16 de Julho de 1496, há uma carta de quitação, também transcrita por Braamcamp Freire, que revela que Vicente Sodré foi vedor das obras em Ceuta nesse mesmo ano.
Por uma carta de el-rei D. Manuel, de 15 de Junho de 1500, remetida a Abd Ar Rahaman, alcaide da cidade de Safim, ficamos a saber que, em data anterior, Vicente Sodré havia sido enviado ao mesmo alcaide com instruções para conseguir que as mercadorias portuguesas entrassem na cidade sem pagar direitos. É que Safim submetera-se à autoridade do rei de Portugal, ainda corria o reinado de D. João II, em busca de protecção perante a guerra civil no interior marroquino, e só em 1508 foi, de facto, ocupada pelos Portugueses, explorando desentendimentos entre os mouros. Datada de 10 de Março de 1501, subsiste a ordem de D. Pedro de Castro para se entregar a Afonso Gil, despenseiro da caravela em que ia Vicente Sodré, 25 quintais de biscoito, revelando uma nova deslocação por mar, talvez ainda ao Norte de África.
Cartas régias publicadas na Monumenta Henricina mostram que, desde data indeterminada mas anterior a de 28 de Setembro de 1501, Vicente Sodré era cavaleiro da casa de el-rei, provedor da alma do infante D. Henrique e alcaide-mor de Tomar. O alcaide-mor precedente, Duarte Sodré, morrera a 25 de Agosto de 1500, conforme se lê no epitáfio da sua campa na ermida de Nossa Senhora do Monte em Santarém. Trata-se de cartas de D. Manuel a ordenar que se celebrassem os sufrágios prescritos no testamento do infante D. Henrique, sendo dirigidas às autoridades nas ilhas de S. Tomé e Príncipe, na Mina, e no castelo de Arguim. Vicente Sodré pediu e obteve de um juiz o traslado das ditas em pública forma, a fim de ficar na posse de um instrumento para guarda e conservação de alma do infante (sic) como lhe competia enquanto provedor. Esta função era inerente à de alcaide-mor da vila de Tomar, conforme fora determinado na carta testamentária do infante D. Henrique, de 30 de Setembro de 1460.
Prosseguindo cronologicamente, surge um último documento, antes da partida para a Índia, que consiste na carta de legitimação de seu filho Fernão ou Fernando, que teve de Isabel Fernandes, mulher solteira, dada em Lisboa datada de 05 de Outubro de 1501, na qual Vicente Sodré é referido como fidalgo da casa régia e cavaleiro da Ordem de Cristo. Fernão Sodré foi cavaleiro e fidalgo da casa real de D. João III e terá morrido na Índia sem geração, onde foi alcaide-mor e feitor de Ormuz, por carta régia de 4 de Fevereiro de 1528. Além deste, D. António Caetano de Sousa apresenta Vicente como pai de um João Sodré, escudeiro-fidalgo de D. João III.
A legitimação de seu filho Fernão coincide com o regresso de Pedro Álvares Cabral da Índia trazendo a notícia da destruição da feitoria de Calecute e assassinato do respectivo feitor Aires Correia e mais de cinquenta portugueses, pela acção dos mercadores muçulmanos, sem que o rajá samorim o impedisse. Ante esta notícia, D. Manuel determinou a preparação e partida de nova armada sob o comando de Pedro Álvares Cabral, mas na verdade viria a ser Vasco da Gama o seu capitão-mor, ao que parece por influência directa do estatuto de Vicente Sodré na mesma. O descobridor do Brasil ter-se-á oposto à decisão real de, no seio da armada, autonomizar uma esquadra cujo almirante (capitão-mor) seria Vicente Sodré, dotado de regimento próprio, porque este permaneceria no Oceano Índico após o regresso dos demais navios carregados de especiarias. Ficaria obrigado a, nas palavras de João de Barros, guardar a boca do estreito do mar Roxo para defender que não entrassem ou saíssem por ele as naus dos mouros de Meca. Antes de ir para o Norte, deveria manter-se na costa do Malabar e colaborar com Cabral no estabelecimento formal e consolidação de feitorias em Cochim e Cananor.
Questões de precedência, de protocolo e de partilha de presas levaram à ruptura entre os dois homens e à intervenção de Vasco da Gama, invocando privilégio de 02 de Outubro de 1501 que lhe conferia o direito de assumir o cargo de capitão-mor das armadas destinadas à Índia sempre que o desejasse. Assim aconteceu, ficando Vicente Sodré vice-almirante da armada e sucessor do almirante em caso de falecimento e absolutamente independente só à data do regresso deste. Esta alteração ao estatuto inicial terá sido aceite sem qualquer problema por Vicente, porque havia uma relação de parentesco tio-sobrinho e no tocante ao Oriente os direitos de Gama não se comparavam aos de Cabral, que nunca mais comandou uma armada.
O rei D. Manuel escreve ao almirante, a 06 de Fevereiro de 1502, insistindo para que este respeitasse o regimento do seu tio no sentido de não ter qualquer parte nas presas que Vicente viesse a fazer.
A 10 de Fevereiro de 1502, D. Vasco da Gama, parte novamente para a Índia como capitão-mor de uma armada composta por quinze velas, incluindo cinco afectas a Vicente que transportavam madeira lavrada para armar mais uma caravela em Moçambique. Uma destas velas era capitaneada pelo seu irmão Brás Sodré. A 01 de Abril, partiram outras cinco velas sob o comando de Estêvão da Gama, sobrinho do almirante da Índia, que acabaram por se juntar às anteriores formando uma imponente força naval.
As crónicas só voltam a falar de Vicente Sodré já em pleno Índico, na zona dos baixios de Sofala, quando Vasco da Gama o manda seguir viagem para a ilha de Moçambique com todas as naus grossas enquanto ele visitava Sofala. Chegando a Moçambique em meados de Maio armou a nova caravela em cerca de três semanas. A 12 de Junho a armada reunida submete Quíloa mediante uma demonstração de força. Nesta cidade, Gaspar Correia relata um episódio de veracidade duvidosa em que Sodré acompanhado de um tradutor, Gaspar língua, negoceia com o rei local o regresso a terra de numerosas mulheres que se haviam refugiado nos navios portugueses e queriam converter-se ao cristianismo. À saída do porto junta-se-lhes a esquadra de Estêvão da Gama no comando da formidável nau Flor de la Mar. Na noite de 15 para 16 de Agosto, a nau Esmeralda de Vicente (e não S. Jerónimo como diz Gaspar Correia) sofreu a quebra do mastro principal, quando já só estava a quatro dias da ilha de Angediva, ao largo de Goa, onde convalesceu toda a gente que levava enferma.
Daí partiram para Sul para o monte Deli, onde começa a costa do Malabar, no sentido Norte-Sul, iniciando a caça aos navios de Calecute em vingança pelo massacre na feitoria respectiva, acção que culminou, em Setembro, com o afundamento da grande nau Meri com todos os embarcados, excepto uma vintena de crianças recolhidas, que tornava de Meca a Calecute com peregrinos, especiarias e muita riqueza. Estava artilhada e guarnecida com quase três centenas de marinheiros e guerreiros. A embarcação pertenceria ao sultão mameluco do Cairo, o ataque foi sem quartel e a resistência valente mas infrutífera. A Meri ardeu até à linha de água, acabando os seus dias destruída pelo fogo como fora a feitoria de Calecute, porque Gama estava convicto de que os ocupantes eram da comunidade mercantil muçulmana desta cidade.
Não há informação disponível relativa aos pormenores da actuação de Vicente nesta operação, mas sabe-se que o piloto da Meri integrava as suas tripulações no dia do naufrágio fatal nas Curia Muria.
A armada fundeia em Cananor, mas não é bem recebida e parte para Calecute, onde chega a 29 de Outubro. Também aí Gama não logra as satisfações que pretendia pelo caso da feitoria, destrói pequenos barcos e tripulações e vareja a cidade a tiro de bombarda. A 3 de Novembro dá à vela para Cochim, deixando Vicente Sodré com cinco naus e uma caravela a bloquear o porto. Esta será a primeira de uma série de missões que lhe vão sendo atribuídas por Vasco da Gama e que desempenha com eficácia e zelo, como se infere do relato dos diversos cronistas, revelando as mesmas qualidades que demonstrara no serviço a el-rei D.Manuel e lhe valeram a inequívoca confiança real em cargos e missões supramencionadas.
Antes do resto, coube a Vicente Sodré andar de armada na costa, com os navios mais rápidos, essencialmente entre Cananor e Cochim, fazendo guerra acérrima à navegação que se dirigisse para Calecute por forma a submeter o samorim através do corte das suas linhas de comunicação marítima e impedimento do abastecimento de mantimentos de que a cidade era totalmente dependente, apenas devendo paz aos barcos de Cochim, Cananor e Coulão. Outrossim, serviu amiúde de intermediário entre Vasco da Gama e o rajá de Cananor, a quem protegia contra as exigências dos mercadores mouros, e neste âmbito terá protagonizado uma humilhante manifestação de poder contra um rico mercador do Cairo que desrespeitou o rajá.
Os episódios navais mais relevantes ocorreram em Calecute, no Outono de 1502, primeiramente quando os indianos armaram uma cilada aos batéis de Vicente Sodré e atacaram-nos com uns quarenta zambucos e paraus, valendo um tiro certeiro de uma caravela ter arrombado o navio do comandante da frota, o que desorientou o inimigo abrindo um caminho de escape aos batéis cercados que logo se puseram ao abrigo do tiro das naus portuguesas. Logo depois, Vicente zarpa para Cananor, e isso coincide com o facto de Vasco da Gama ser atraído de Cochim a Calecute por um brâmane agente do samorim com falsas promessas de paz. Confiante e cogitando que o seu sota-almirante ainda por lá permanecia, apareceu no porto somente com a nau em que ia embarcado, que, segundo Castanheda, era a Flor de la Mar, porque a São Gabriel já estava carregada de especiarias em Cochim. Ante esta oportunidade única, os indianos aproximaram de noite dezenas de paraus, que só se revelaram hostis quando a distância já não facultava à nau um tiro eficaz, seguindo-se um combate desesperado de horas para evitar a abordagem. Já um castelo da nau pegava fogo, quando regressa a esquadra de Vicente encabeçada pelas rápidas caravelas, desbaratando a força adversária e salvando a vida ao seu sobrinho.
A maior vitória naval de Vicente Sodré ocorre nas vésperas do regresso de Gama a Portugal, quando este já com dez naus carregadas de especiarias em Cochim se dirige a Cananor para carregar as três naus restantes escoltado pela esquadra de guerra de seis navios de seu tio. À passagem por Calecute, o rajá samorim envia uma frota de algumas dezenas de naus, zambucos e paraus que não atinge as naus de carga, porque é interceptada pela escolta num combate violento descrito de forma colorida por Gaspar Correia. A nossa artilharia de bronze, em parte de retrocarga e culatra amovível, ante os canhões de ferro do inimigo exclusivamente de carregar pela boca, fez maravilhas e foi decisiva, combinada com abalroamentos, aferramentos e ataques à abordagem que capturaram duas naus com um despojo riquíssimo. O adversário sofreu danos em muitos navios e mais de trezentos mortos, retirando em desordem. O samorim assistiu ao confronto a partir de um palácio situado numa elevação.
Neste combate, Vicente Sodré utilizou sacos de pólvora à medida pré-preparados para aumentar a rapidez do recarregamento e tiro, artimanha de que parece não haver registo documentado anterior, o que induz alguns historiadores nacionais, em trabalhos relativos à marinha de guerra, a assacar-lhe o invento do “cartucho português” um século antes do “cartucho francês Balt”.
Vasco da Gama completa o carregamento em Cananor, onde aporta a 15 de Fevereiro de 1503, logo se fazendo à vela de regresso a Portugal a 28. Note-se que alguns cronistas colocam estes factos em Dezembro de 1502 e outros em Fevereiro de 1503. À despedida terá recomendado a Vicente que desse prioridade à protecção das feitorias de Cananor e de Cochim e ainda à defesa da reduzida comunidade cristã de Cranganor. Mas é evidente que aquele era agora absolutamente independente e apenas vinculado ao desígnio real expresso nas instruções plasmadas no seu regimento. Neste contexto, é de destacar que Sanjay Subrahmanyam cita documentos da autoria do embaixador de Veneza em Lisboa, nomeado em Abril de 1501, Pietro Pasqualigo, relatando que a maior das obsessões de D. Manuel era bloquear o Mar Vermelho e asfixiar a economia mercantil do sultanato mameluco.
Desta sorte, recolher informações e iniciar essa missão deve ter sido imperioso para Vicente Sodré e só uma situação inelutável que o impedisse fisicamente de o fazer o poderia reter na costa do Malabar. Era essa, verdadeiramente, a primeira prioridade do seu regimento, como se deduz da leitura da generalidade dos cronistas. O capitão-mor do Mar da Índia deveria explorar a costa arábica em busca de um local para futuro estabelecimento de uma base estratégica na boca do Mar Vermelho, perceber a navegação muçulmana no Babel Mandeb, e iniciar o controlo da ligação marítima entre o Egipto e a Índia. Porém, é claro que a esta missão havia que juntar a da contribuir para a protecção das feitorias de Cochim e de Cananor, assaz distanciadas entre si, e consequente manutenção da influência portuguesa no Malabar. Os meios disponíveis eram insusceptíveis de divisão e, mais tarde ou mais cedo, era preciso optar…
Assim, Vicente Sodré começou a exercer o cargo de almirante da primeira força naval portuguesa estacionada no Oriente, composta pela nau capitania Esmeralda, alcunhada de “Jóia”, de dimensões e poder de fogo substanciais; a nau São Pedro, de seu irmão Brás Sodré; a nau São Paulo, de Pêro de Ataíde; a caravela Santa Helena, de Fernão Rodrigues Badarças; e a caravela Santa Marta, embarcando cerca de duzentos mareantes e homens de armas. Excepto a Esmeralda, os outros eram navios de porte ligeiro, ágeis e velozes. Mas todos dispunham de peças grossas no convés inferior que atiravam por portinholas (cerca de quatro nas caravelas e seis nas naus pequenas) além de falcões e berços na parte superior. Nenhum casco islamita ou gentio, mesmo de navios bem mais altos do que os nossos, resistia ao tiro grosso ao “lume de água” e a uma cadência e alcance superiores.
João de Barros reconhece que Sodré cumpriu o regimento a que ia obrigado até se perder. A primeira coisa que fez foi capturar quatro naus de Calecute repletas de mantimentos junto aos ilhéus de Santa Maria, os quais descarregou em Cananor, tudo entregando ao feitor Gonçalo Gil Barbosa. O objectivo de desviar a navegação de Calecute para Cananor esteve sempre na mente de Vicente. Informado de que o rajá corria perigo, zarpou para Cochim e de caminho tomou e incendiou três zambucos do samorim que vinham das ilhas Maldivas.
Em Cochim, as versões do que aconteceu divergem entre os cronistas, sendo que uns asseveram que Vicente se colocou à disposição do rajá, mas que este considerou que o samorim de Calecute não estaria tão cedo em condições de o atacar e que a armada poderia partir para a costa da Arábia, designadamente porque era tempo para tal, enquanto outros afirmam ao invés que foi o capitão-mor quem menosprezou o perigo para o rajá e a feitoria portuguesa e decidiu navegar para o estreito. Barros e Faria de Sousa justificam-no, os demais condenam-no e até o acusam de estar basicamente motivado pela perspectiva das presas do corso que ia empreender. Significativamente, Castanheda põe Vicente Sodré a declarar que era capitão do mar e por isso não havia de pelejar senão no mar e se a guerra viesse por mar e não por terra… Seja como for, afigura-se incontroverso que o Inverno impossibilitava qualquer acção eficaz na costa do Malabar, mormente o bloqueio do porto de Calecute, sendo a época adequada para deslocar a armada para a boca do Mar Vermelho.
A partir daqui os autores não são unânimes quanto às rotas seguidas e às acções militares empreendidas, que aliás também deixaram eco em crónicas árabes. Poderá ter começado por efectuar uma batida na costa de Cambaia, capturando navios guzarates carregados de tecidos e malabares carregados de especiarias. Rumando a sul, terá arribado a Angediva e regressado a Cananor, onde ofereceu parte das presas ao rajá e consertou a armada. Solicitou pilotos que o conduziram pelo mar alto até à ilha de Socotorá, o primeiro navegador português a avistá-la, onde fez aguada e donde passou ao cabo Guardafui e seguiu para cerca de dois meses de exploração da costa da Arábia e cruzeiro armado no estreito, que comportou a captura de uma grande nau de Chaul com rico espólio de seda e outros tecidos; até que, a 20 de Abril de 1503, fundeia nas ilhas Curia Muria para arranjos, abastecimento de alimentos, e abrigo de fortes ventos que se começavam a fazer sentir.
O desenlace fatal aproxima-se a passos largos, os habitantes terão alertado para a iminência de um tufão, mas, desconhecedores desse fenómeno natural, os irmãos Sodré resolveram enfrentar os elementos limitando-se a reforçar as âncoras das naus, e só abrigaram os navios dos seus subordinados. A cena poderia ter inspirado os versos de uma famosa canção que rezam “antes morrer sob o furacão, do que nunca conhecer a tempestade”. O certo é que, a 30 de Abril ou a 01 de Maio de 1503, a tormenta desfez e lançou as naus para terra com a morte imediata de Vicente Sodré. Quanto a Brás Sodré, o sobrevivente Pêro de Ataíde garante que não morreu na tempestade e mandou matar os pilotos muçulmanos, incluindo o ex-piloto da Meri. Contudo, não voltou das ilhas e terá sofrido um fim envolto em mistério.
Pêro de Ataíde, eleito novo capitão-mor, conduziria, a muito custo, os cerca de cento e cinquenta sobreviventes e os três navios restantes de regresso à costa indiana. Ao voltar ao reino, escreve uma carta a el-rei D. Manuel na ilha de Moçambique, em Fevereiro de 1504, com a sua versão do ocorrido, em que recrimina Brás Sodré como prepotente e açambarcador, mas não Vicente Sodré (“que Deus haja” como repetidamente escreve), excepto por omissão em face do irmão. Ataíde aproveita para se apresentar a el-rei como muito probo enquanto difama outros. Como recompensa pelos seus serviços solicita a alcaidaria-mor de Tomar pertencente a Vicente, só que morre pouco depois durante a viagem. Faz também um inventário das presas da armada, assinalando a grande nau de Chaul, quatro navios e um zambuco. Infelizmente, a carta não refere o exacto rumo da armada até às Curia Muria, porém é taxativa relativamente ao facto de que aí chegou a partir do cabo Guardafui.
Em virtude das contradições e lacunas nas crónicas, para esclarecimento da fase final da carreira de Vicente Sodré é fundamental a obra de Brás de Albuquerque, mormente ao escrever que Afonso de Albuquerque, após a tomada da ilha de Socotorá, largou do porto de Soco para a costa de Omão e que a 13 de Agosto de 1507 estava nas proximidades das ilhas Curia Muria. Quando partiu de Calaiate na direcção de Curiate, informou os pilotos de que era possuidor de um roteiro, feito por um piloto mouro chamado Omar, de todos os portos, vilas e lugares daquela costa, quando este por ali andara com Vicente Sodré. Destarte, fica demonstrado que cabe a Vicente o mérito de haver sido o primeiro explorador da costa sul da península da Arábia, até então de contornos imprecisos como se apresenta no planisfério de “Cantino” de 1502, tendo talvez chegado a penetrar águas do golfo de Omã, conforme se infere dos “Comentários”.
Tal como hoje se vê em qualquer atlas, o escrito em apreço situa as ilhas Curia Muria perto costa ocidental de Omã e não entre o cabo Guardafui e a ilha de Socotorá, como fazem certos autores actuais. A dúvida na localização julgo que resulta do laconismo da descrição de Lopes de Castanheda, depois repetida por Damião de Góis e Jerónimo Osório, que pode levar a pensar que Vicente Sodré navegou junto à costa da Arábia no sentido Leste-Oeste; mas as pormenorizadas descrições de João de Barros, Gaspar Correia e Faria de Sousa revelam que ele alcançou o cabo Guardafui e Socotorá atravessando pelo mar alto e só depois percorreu a costa arábica no sentido Oeste-Leste.
As decisões, o comportamento, as circunstâncias da morte de Vicente Sodré, e o facto de Cochim e a feitoria portuguesa terem afinal sido alvo de fortíssimo ataque do exército do rajá de Calecute, sem que beneficiassem do apoio da armada, motivaram acérrimas acusações de cronistas como Fernão Lopes de Castanheda, Gaspar Correia, Damião de Góis, Jerónimo Osório, e somente a compreensão de João de Barros e Manuel Faria de Sousa. Contudo, uma observação cuidada percebe que às críticas subjaz tão-só uma visão providencialista da História, própria da época, em que havendo desastre este é imputado à vontade divina e ao castigo dos pecados supostamente perpetrados. Os cronistas recriam os factos para se ajustarem e justificarem o alegado juízo de Deus.
Julgo provável que as decisões de Vicente Sodré também derivassem do espírito de cruzada que animava os cavaleiros da Ordem de Cristo e o respectivo grão-mestre, o próprio rei. A maneira como subiu ao trono, o sucesso da descoberta do caminho marítimo para a Índia, e os educadores franciscanos levaram D. Manuel a considerar-se um predestinado e inclusive a sonhar com a destruição de Meca e a reconquista de Jerusalém, impondo a opção nacional indiana contra opção marroquina partilhada pela grande maioria. Era necessário começar por asfixiar economicamente o sultanato mameluco no Egipto, concretizando o seu título de senhor da conquista da navegação e comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia.
Vicente Sodré, servidor fiel e experimentado do rei, antes do mais interpreta e encarna esta visão ao zarpar para o estreito de Meca e advir o verdadeiro precursor do combate contínuo pela nossa hegemonia marítima no Índico, o primeiro mártir desse esforço secular homérico, ficando na História, fossem quais fossem os seus pecados, como o primeiro capitão-mor do mar da Índia, que a partir dele sempre contou com a permanente presença naval portuguesa até há poucas décadas.
A terminar, em termos muito gerais, talvez seja possível aventar que a morte de Vicente Sodré conduziu a uma modificação na estratégia portuguesa, nesta fase centrada no monopólio do comércio das especiarias. Com Gama ajuizara-se que bastaria instalar feitorias nas principais cidades indianas que escoavam as especiarias e fazer amizade com os rajás locais. Com a resistência enfrentada por Cabral concluíra-se que além das feitorias eram necessárias armadas permanentes para as proteger e dominar as rotas do comércio marítimo. Com a morte de Sodré percebera-se que a mobilidade, a velocidade e a iniciativa no mar não eram suficientes, havendo que construir fortalezas para apoiar as feitorias e as armadas. A trilogia feitoria-fortaleza-armada será a chave do Império.


Bibliografia

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Corpo Cronológico, código PT-TT-CC/2/3/93 e PT-TT-CC/1/4/40 (vd TT online).

 

publicado por Eupróprio às 17:16
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1 comentário:
De Eupróprio a 17 de Maio de 2010 às 10:38
Publicado como artigo no nº 20 da revista Raízes & Memórias relativa a 2004.
Órgão oficial da Associação Portuguesa de Genealogia.


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