Quinta-feira, 5 de Março de 2015

Cais do Sodré: dados históricos

A travessa do Corpo Santo em Lisboa apareceu em 1784, depois de Vicente Sodré ter mandado edificar por aquela zona alguns prédios, um deles, pelo menos, o da praça dos Remolares, com frente para o cais que ele custeou em parte e que dele recebeu o nome.

Um desses prédios da travessa, já edificado no princípio do terceiro quartel do século XVIII, pertencia a António Sodré Pereira Tibau, filho de Duarte Sodré Pereira e de D. Maria de Almeida. Aí, a 7 de Março de 1780, faleceu sua mulher D. Teresa Heliodora de Meneses e Cunha, filha de D. Pedro Álvares da Cunha e de D. Maria Teresa de Vilhena, com a qual casara a 22 de Junho de 1787 na paroquial de Santa Catarina, e aí, nas mesmas casas da travessa do Corpo Santo, faleceu o dito António Sodré Pereira Tibau, a 18 de Dezembro de 1785.

Os anteditos Duarte Sodré Pereira e, seu filho, António Sodré Pereira Tibau, foram senhores de Águas Belas. O principal prédio que pertenceu aos Sodrés é o que também tem frente para a rua e travessa dos Remolares e para o cais do Sodré.

Ainda em 1779 se designava como cais do Sodré, a praça que, em 1780, era conhecida por praça dos Remolares, e de 1781 a 1789 aparece denominada do Embarque. O nome de praça do Duque da Terceira foi-lhe dado por edital de 28 de Dezembro de 1889, quando oficialmente só era denominada praça dos Remolares e o nome de cais do Sodré havia muito se tinha fixado na artéria que liga o largo do Corpo Santo à citada praça.

Estas informações foram publicadas pelo conhecido especialista da história da Lisboa, Júlio de Castilho, em "A Ribeira de Lisboa" editada nos anos quarenta do século XX. Acrecentei pequenos detalhes.

 

publicado por Eu às 11:43
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Sexta-feira, 5 de Outubro de 2012

Origem portuguesa do apelido Sodré

Até hoje não se conhece documento que indique a existência do apelido Sodré em Portugal antes da segunda metade do séc. XIV. Registados estão um cavaleiro e um escudeiro da segunda década do séc. XV, possivelmente irmãos, que portanto nasceram nos finais do séc. XIV, e cujo pai já usaria esse apelido. Não sendo um patronímico nem um topónimo, Sodré deriva de uma alcunha de origem obscura. Não se sabe se o primeiro a usar o apelido já era da pequena nobreza dos escudeiros ou se era plebeu, nem se foi ele ou antes um seu descendente quem ascendeu à nobreza e usou, pela primeira vez, o brasão de Sodré. Não se sabe se o brasão foi assumido livremente por um Sodré, o que era possível no séc. XIV, ou atribuído por algum Senhor pelos serviços por ele prestados. Todavia, é de admitir que o chaveirão de prata carregado de estrelas vermelhas indique a condição de cavaleiro de quem o utilizou pela primeira vez, pois é peça e figuras que muitos relacionam com esporas (há estrelas que até eram representadas com os furos da espora). Já quanto às albarradas ou gomis podem ter significados mais diferenciados, como seja aludirem ao cargo de copeiro, ou à condição de bom servidor, ou estarem ligadas a algum episódio honroso concreto hoje desconhecido, até porque eram artefatos valiosos nessa época e oferecidos como dádivas.

Nas crónicas de Fernão Lopes relativas aos reis D. Pedro, D. Fernando e D. João é dito que foram tempos em que estes reis nobilitaram numerosos servidores, fazendo cavaleiros e fidalgos, designadamente em virtude das guerras fernandinas e da crise de 1383-1385, após a qual um tempo novo se abriu em Portugal. Com a vitória portuguesa na guerra contra Castela, após a gloriosa batalha real de Aljubarrota (14 de agosto de 1385), tornam-se verdadeiras as palavras do grande cronista Fernão Lopes sobre o novo Portugal "fazemos aqui a sétima idade, na qual se levantou outro mundo novo e nova geração de gentes. Porque filhos de tão baixa condição que não cumpre dizer, por seu bom serviço e trabalho foram neste tempo  feitos cavaleiros, chamando-se logo de novas linhagens eapelidos". Muito possivelmente será aqui que está a raiz dos Sodrés cavaleiros, e o seu brasão, semelhante no estilo a alguns ingleses, pode ter sido inspirado pelos funcionários ingleses especializados em heráldica que exerciam funções em Portugal nessa época. De facto, não se conhece documentação do séc XIV nem XV que afirme que os Sodrés eram de origem inglesa. Apenas no início do séc XVI foi feito um epitáfio numa campa em que se escreveu que eram ingleses, mas em condições que levam a suspeitar de que se procurou criar uma lenda para engrandecer o prestígio da linhagem dos Sodrés de Santarém, que se tinham tornado morgados e casado na importante família dos Pereira. Assim, não se conhece ainda documentação sólida que leve à conclusão de que os Sodré não foram sempre portugueses. Com a documentação atual, é de admitir como muito provável que se trate de um apelido de origem portuguesa, numa alcunha e na segunda metade do séc. XIV, sendo as suas armas também portuguesas, embora talvez de influência inglesa na composição.     

publicado por Eu às 17:13
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