Quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Das Armas dos de Pereira

 

 
A génese das armas da família Pereira (de vermelho, uma cruz florida de prata, vazia do campo) é imputada, pela generalidade dos genealogistas dos sécs. XVII e XVIII, à decisão de D. Rodrigo Forjaz de Trastâmara de assumir, como insígnia pessoal, uma cruz inspirada na que alegadamente vislumbrara no céu, aquando da batalha das Navas de Tolosa, em 1212, o que configura uma interpretação anacrónica, porquanto D. Rodrigo, avô do primeiro Pereira, foi coevo do Conde D. Henrique, logo faleceu bem antes desta data. Aliás, o pretenso milagre foi longamente invocado para justificar o conjunto de cruzes floridas presentes nos brasões de diversas linhagens peninsulares…
Esta explicação fantasiosa, propalada a partir de Argote de Molina, genealogista andaluz do séc. XVI, foi rebatida por Braamcamp Freire ao alvitrar que, provavelmente, as cruzes floreadas haviam sido adoptadas em atenção às ordens militares de Calatrava ou de Avis, consoante o caso, e denunciavam antigas ligações dos progenitores das famílias que as usam àquelas instituições.
Na mesma linha, mas remontando nas origens, seguiu o Marquês de São Payo, explanando que a Ordem de Calatrava, fundada cerca de 1150 por D. Afonso VII, perfilhara a regra de Cister, em 1187. Então, colocara-se sob a jurisdição canónica da abadia francesa de Morimond que usava por armas: de prata, uma cruz ancorada de vermelho, cantonada por quatro letras MORS de negro. Em sinal de filiação, a Ordem de Calatrava escolheu aquela cruz como insígnia, obliterando as letras, e, com o tempo, a cruz de ancorada passou a florida, pela emergência, em cada braço, de uma terceira ponta entre as duas reviradas em âncora.
Mais recentemente, coube ao Marquês de Abrantes reiterar a tese de que as armas dos Pereiras emanam da emblemática de Calatrava ou de Avis, por esta constituir a explicação mais natural para a multiplicidade de cruzes flordelisadas na heráldica ibérica.
Desta breve resenha ressalta que, curiosamente, as orientações imprimidas à investigação da raiz do escudo dos Pereiras se têm circunscrito a considerandos sobre o tipo de cruz nele presente (florida), passando despercebidos os demais componentes das armas, nomeadamente o metal da própria cruz (prata) e a cor do campo (vermelho). Ora, é precisamente em função destes últimos elementos que julgo possível gizar uma nova hipótese, radicando a heráldica dos Pereiras na da ordem militar do Hospital de S. João de Jerusalém, que fora introduzida em Portugal entre 1122 e 1128.
Perscrutando a indumentária e a emblemática dos hospitalários, constata-se que estes usavam inicialmente um manto negro, sobre o qual coseram, no primeiro quartel do séc. XIII, uma cruz branca de 8 pontas (cruz pateada de cauda de andorinha). O manto só terá mudado de negro para vermelho cerca de 1259, isto entre os cavaleiros pois os sargentos alteraram-no depois de 1278, conservando a mesma cruz. Seriam as armas da Ordem de Malta, designação da Ordem do Hospital após 1530, ano em que os cavaleiros se estabeleceram naquela ilha, cedida, para o efeito, pelo Imperador Carlos V.
Regressando aos primitivos hospitalários, a cruz pateada não parece ter sido utilizada na cota militar, onde a cruz branca seria antes simples e firmada. Aliás, desde 1182, provavelmente ainda antes, o gonfalão (antiga bandeira farpada) da Ordem era vermelho com uma cruz branca firmada. Todavia, um escudo idêntico, supostamente apenas foi adoptado universalmente em todas as dependências do Hospital com o Grão-Mestre Nicholas de Lorgne (1277-1285).
Entretanto, a aferição de presumíveis laços entre os Pereiras e o Hospital revela indícios positivos. O eminente medievalista Professor José Mattoso estima que no séc. XIII já todas as famílias nobres portuguesas incorporavam filhos nas ordens militares e que os Pereiras preferiam ser hospitalários. Por sua vez, Bramcamp Freire, em consonância com o Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, menciona um D. Frei Gonçalo Peres de Pereira como Grão-Comendador de Espanha, na Ordem do Hospital, pelos anos de 1269 a 1291, e Felgueiras Gayo assegura que uma memória dá Gonçalo Pereira, pai e homónimo do notável Arcebispo de Braga avô do Santo Condestável, como comendador na mesma ordem militar. Trata-se de meios-irmãos, ambos filhos de D. Pedro Rodrigues Pereira, que foi o primogénito e sucessor de D. Rodrigo Gonçalves Pereira, 1º Senhor da torre e quintã de Pereira, genearca dos deste apelido.
Segundo o Marquês de Abrantes, é na Sé de Braga, mais precisamente na capela funerária de D. Gonçalo Pereira, Arcebispo após 1323, que se observa a mais antiga representação colorida conhecida das armas dos Pereiras, em fresco de meados do séc. XIV. O mesmo autor refere que aquele clérigo usou armas idênticas no selo ogival. Seu filho, D. Álvaro Gonçalves Pereira, ingressou precocemente nos hospitalários vindo a ser escolhido para Prior, o primeiro a estabelecer-se no Crato. Aí, fundou o convento da Flor da Rosa, cerca de 1356, como nova sede da ordem, onde jaz num túmulo de mármore apenas cinzelado com os escudos, lado a lado, dos Pereiras e do Hospital (cruz simples firmada).
Em sintonia com a linha de interpretação sugerida, será pertinente realçar a conjugação, na segunda metade do séc. XIII, de alguns factores: os Pereiras recorrem essencialmente à Ordem do Hospital para colocarem os seus membros como cavaleiros, mormente os filhos segundos; memórias assinalam que, neste período, importantes figuras daquela linhagem administram comendas nesta ordem militar; os hospitalários já trazem nas cotas de armas, estandartes e escudos, uma cruz firmada de prata em campo vermelho.
Uma maior consolidação documental das indubitáveis ligações entre os primeiros Pereiras e os cavaleiros-monges sobreditos afigura-se crucial para consubstanciar melhor a leitura que propomos, mas as pesquisas esbarram com engulhos resultantes da destruição do arquivo da ordem, aquando do saque do Crato pelo exército espanhol de D. João de Áustria em 1662.
Não obstante reconhecer as limitações do material aduzido, suponho que ele indicia, com alguma verosimilhança, que as armas dos Pereiras terão surgido na segunda metade do séc. XIII inspiradas nas do Hospital, ou talvez antes, mas é menos provável, se derivadas do gonfalão de combate dos hospitalários.
Aparentemente, só as terminações em flor de lis dos braços da cruz dos Pereiras afastam o seu brasão da heráldica estritamente hospitalária. Na explicação de Ottfried Neubecker, um dos maiores heraldistas do séc. XX, a flor de lis é um emblema da Virgem desde o ano mil. Assim, serão as armas dos Pereiras o resultado de fusão entre as do Hospital e a simbólica mariana? Uma estatueta de Nossa Senhora das Neves, do séc. XIV, conhecida por Senhora de flor da Rosa, dá o nome ao convento do Crato. Presumivelmente lá colocada pelo seu fundador, traduzirá uma tradicional devoção dos Pereiras pela Virgem?
Também não é de arredar a hipótese de o uso de braços flordelisados reflectir, tão-só, uma mera questão de gosto estético, em face da prodigalidade deste tipo de estilização, e outro tanto se poderá dizer dos Pereiras terem vazado a sua cruz.
Fugindo a mais conjecturas, espero unicamente ter despertado atenções para uma possível conexão entre as emblemáticas examinadas.
 
Bibliografia citada no artigo publicado na revista “Armas e Troféus” 1989/90, do Instituto Português de Heráldica.
publicado por Eu às 16:18
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