Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Ligações familiares de Vasco da Gama pelo lado materno

 

 
Ao estudar as ligações familiares do grande navegador Vasco da Gama pelo lado materno é obviamente imperioso começar por determinar quem foi a sua mãe e afinal ele próprio. Embora assim pareça, à partida, a questão não é absolutamente absurda, porque é um facto comprovado que, ainda solteiro, seu pai teve um primeiro filho bastardo, anterior ao casamento com Isabel Sodré, a quem deu o mesmo nome e do qual nada transpirou para a História excepto ter existido e na juventude ter tomado a primeira tonsura no mesmo dia que seus meios-irmãos, conforme mais à frente pormenorizarei.
O problema está resolvido nos escritos dos grandes cronistas coevos no sentido do 2º Vice-Rei da Índia pertencer à família Sodré pelo lado materno. Efectivamente, João de Barros e Diogo do Couto afirmam que Vicente Sodré era tio de Vasco da Gama e irmão de sua mãe; Damião de Góis dá Vicente Sodré como tio de Vasco da Gama; Fernão Lopes de Castanheda e Gaspar Correia escrevem que Vicente Sodré era seu parente; Gaspar Correia, que esteve na índia com Vasco da Gama já Vice-Rei, e Diogo do Couto, em tratado sobre os Gamas, asseveram que este era irmão mais novo de Paulo da Gama. Também o registado, neste contexto, nas relações das naus e armadas da Índia é coerente com os principais cronistas.
Ora se o descobridor tivesse sido o Vasco da Gama bastardo, então não era sobrinho de Vicente Sodré, nem seu parente, nem irmão mais novo de Paulo da Gama. Além de que, a ser verdade, a bastardia jamais deixaria de ser lembrada e apontada pelos seus inúmeros inimigos ao longo dos tempos, o que não aconteceu…
Outrossim, na época, não faz qualquer nexo que o chefe da família, Paulo da Gama, aceitasse a desonra de ser subalterno de um meio-irmão bastardo. Ao invés, note-se que a forte ligação fraterna do Vasco da Gama histórico ao seu irmão mais velho Paulo Gama o levou a quedar-se na cidade de Angra, na Ilha Terceira, até à consumação da morte deste, adiando o regresso a Lisboa, onde o D. Manuel o aguardava, enquanto manda Nicolau Coelho e João de Sá prosseguirem viagem. Nicolau chega em Julho de 1499, Gama só dois meses mais tarde! Enfim, julgo que a questão é líquida e não merece mais atenção.
A dúvida vai ser outra, é que durante séculos, e ainda hoje, os genealogistas, copiando-se uns aos outros, induziram em erro os melhores e mais modernos autores que versaram a figura do Conde-Almirante Dom Vasco da Gama, descobridor do caminho marítimo para a Índia, quanto aos seus avós maternos, ao propalarem que sua mãe, Isabel Sodré (mulher de seu pai, Estevão da Gama, Alcaide-mor de Sines), era filha de Maria Sodré e de João de Resende, Provedor das valas de Santarém.
Tanto quanto me apercebi, apenas Cristovão Alão de Morais, na Pedatura Lusitana, aponta João Sodré como o pai de Isabel Sodré, mas mantém o erro de apresentar Maria Sodré como a mãe. Na geração antecedente, Maria Sodré é referida com filha de um tal Fradique Sodré, figura de que não encontro documentação indiscutível, pelo que aqui pararia a investigação genealógica.
Obras bem recentes mantêm este erro, porém já nada o justifica depois da Academia Portuguesa de História haver publicado, em 1990, a matrícula de ordens da diocese de Évora (1480-1483), pela qual Isaías da Rosa Pereira prova que Vicente Sodré (irmão mais novo de Isabel Sodré) é filho de João Sodré e de Isabel Serrã. (feminino de Serrão). Assim, é este casal que deve ser considerado sendo o dos avós maternos de Vasco da Gama, o qual recebeu a primeira tonsura juntamente com o seu tio Vicente, em Sines, a 5 de Novembro de 1480, seu meio-irmão Vasco, e irmãos inteiros Paulo, João e Pedro.
A matrícula mencionada demonstra cabalmente que Vasco da Gama era filho terceiro do casal Estêvão Gama e Isabel Sodré e que foram seus irmãos mais velhos outro do mesmo nome (meio-irmão, filho ilegítimo de mãe solteira de nome desconhecido, quando Estêvão ainda era solteiro), Paulo da Gama e João Sodré (espelhando a tradição de dar a um filho o nome do avô materno) e irmão mais novo Pedro da Gama. Embora não referidos na matrícula de ordens, também foram seus irmãos mais novos Aires da Gama e Teresa da Gama.
Esta descoberta é prenhe de consequências genealógicas, e é este filão que me proponho explorar, ligando o Conde-Almirante aos Sodrés do século XV e primeira metade do século XVI, e estes entre si, sem recorrer a genealogias manuscritas, excepto quanto estas mencionam e permitem alcançar documentação histórica válida.
João Sodré, avô materno de Vasco da Gama, era Almoxarife do Armazém de Lisboa, Escudeiro e Criado da Casa Real, em 1447. D. Afonso V fez-lhe doação de uma quinta no Porto, a 25 de Março de 1455, e de bens confiscados a partidários do infante D. Pedro, a 10 de Julho de 1449. Sua mulher, Isabel Serrã, era donzela da Infanta D. Beatriz e filha de Afonso Lopes e de Teresa Eanes, amos da Rainha de Castela, D. Isabel (filha do Infante D. João, Condestável do Reino e Administrador da Ordem de Santiago).
Teresa Eanes, casara, em segundas núpcias, com Fernão Sodré, pai de João Sodré. Assim, Fernão Sodré e Teresa Eanes promoveram o casamento entre dois dos seus filhos de anteriores casamentos e, a 9 de Junho de 1447, fazem-lhes doação de todos os seus bens sitos em Montemor-o-Novo, Alcácer, Almada, Lisboa e Mafra. Também os irmãos de Isabel Serrã (João Serrão e Inês Serrã) abdicaram das respectivas heranças a favor do casal.
Deste modo, descobre-se que Fernão Sodré é o bisavô materno de Vasco da Gama. Criado e Escudeiro de D. João I, era Escrivão da alfândega de Lisboa quando, a 27 de Agosto de 1437, lhe foram confiscados diversos bens na sequência do desmantelamento de toda a equipa alfandegária por apropriação ilícita de mercadorias. Terá acabado como Reposteiro-mor de D. Isabel, Rainha de Castela (segundo nota de D. Flamínio de Sousa). Julgo muito provável que tenha posto a seu filho o nome de seu pai, pelo que Fernão Sodré seria irmão de João Sodré, que a Crónica de D. Pedro de Meneses regista como Cavaleiro em Ceuta entre 1415 e 1418, pois é referido logo antes do cerco da praça pelo Rei de Fez, de 1418-19, devendo ter estado entre os cerca de 19.000 combatentes que conquistaram a cidade, a 21 de Agosto de 1415. E neto de um outro João Sodré ainda por detetar e talvez o primeiro deste apelido.
Deste modo, é de crer que este João Sodré foi o trisavô materno de Vasco da Gama, representando a primeira geração de Sodrés portugueses. Caso se confirme a origem inglesa deste apelido, o que não é indiscutível, o seu pai terá entrado em Portugal no contexto das contingências da aliança com Inglaterra, a partir do Tratado de Tagilde de 1372.
Duarte Sodré é a figura cimeira da família Sodré durante o século XV, conforme ajuízo da documentação que consultei. Terá nascido em Santarém, pois aí era a casa de seus pais. Em 1465, era escudeiro da Casa do Infante D. Pedro (ex-Condestável do Reino e efémero Rei da Catalunha). Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador de Santa Ovaya do Juncal, na mesma Ordem, antes de 1475. Vedor da Casa do Duque de Viseu, D. Diogo II e, mais tarde, Vedor da Casa do Duque de Beja, futuro Rei D. Manuel.
É autorizado a instituir um morgado nos reguengos de Tojoza e Alviela (termo de Santarém) com a obrigação dos sucessores seguirem o apelido Sodré, por carta de 23 de Agosto de 1486 registada na Chancelaria do Rei D. João II, na qual é designado como Cavaleiro da Casa Real. Também recebeu do Rei D. João II, em Novembro de 1492, certos bens e herança no lugar de Romão, no almoxarifado da Guarda, tomados a três moradores locais.
Pelo menos desde 1494, foi Alcaide-mor de Seia. A 26 de Janeiro de 1493, já era Comendador e Alcaide-mor de Tomar (ou seja, era comendador da vila e governador militar do castelo, desempenhando diversas funções e exercendo determinados direitos e respectiva cobrança) e Provedor das capelas do Infante D. Henrique (o Navegador) com 7 marcos de prata de ordenado, o que era inerente a esta alcaidaria. Tinha pois a responsabilidade do cumprimento e fiscalização dos sufrágios por alma do Infante.
Comendador da Cardiga (uma das principais comendas da Ordem de Cristo), em data posterior ao mesmo dia de 26 de Janeiro de 1493 (pois nesse dia o Comendador ainda era Heitor de Sousa). A 13 de Fevereiro de 1496 era Vedor da Casa Real.
Fez testamento em Montemor-o-Novo, em 1496. Documento de 07 de Agosto de 1500 refere-o como Fidalgo régio, Comendador e Alcaide-mor de Tomar. Assim, foi indubitavelmente uma das mais importantes personagens da Ordem de Cristo do seu tempo. Faleceu a 25 de Agosto de 1500. Teve geração legitimada de Catarina Nunes.
Está sepultado junto ao altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Monte, em Santarém, tendo a sua lápide, epitáfio, escudo de armas pleno de Sodré, ladeado de espada e lança-pendão.
Segundo escreveu o seu filho Manuel, terá morrido pobre devido à sua generosidade e, enquanto viveu, era muito valido junto do Rei e conhecido no Reino. Entre os seus descendentes, aqueles que foram Senhores de Águas Belas (Ferreira do Zêzere) e usavam o apelido Sodré Pereira eram considerados os chefes do nome e armas de Sodré. Tanto mais que sucederam no morgado fundado por Duarte Sodré.
No seu testamento, lido por D. Francisco de Meneses, Cónego de Évora, Duarte Sodré indica como seus irmãos a Antão Sodré, seu testamenteiro, e Maria Sodré (esta é que terá desposado João de Resende) e nomeia seu filho Francisco Sodré para administrador do seu morgado, a que também deixou vinculadas algumas casas em Santarém herdadas de seus pais.
Teve filhos mais velhos nas pessoas de João Sodré (que renunciou à herança e se fez frade franciscano, falecendo antes de 1496) e Leonor Sodré, ambos legitimados em 1486. Esta e suas irmãs Isabel Sodré e Inês Resende foram freiras no Mosteiro de Santa Clara, em Santarém. Ainda foi pai de Catarina Sodré, casada em Santarém com Paulo Vaz Pimenta, e de Manuel Sodré (cuja intensa actividade na Índia é retratada na carta em anexo).
Francisco Sodré foi legitimado a 12 de Fevereiro de 1496. A 24 de Outubro de 1500, é nomeado Alcaide-mor de Seia. Cavaleiro-Fidalgo da Casa do Rei D. João III com 1700 reis de renda. Juntamente com o seu irmão Manuel, esteve na segunda conquista de Goa sob o comando do grande Afonso de Albuquerque. Morreu em serviço na Índia, entre 1539-1544. Casou com Violante Pereira, filha de João Pereira, 4º Senhor de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), ficando este senhorio na posse da família Sodré Pereira até ao reinado de D. José.
A enorme dificuldade de detectar qual o pai de Duarte Sodré afinal deriva do facto de que ele teve este apelido pelo lado da mãe, pois é filho de Gil Pires de Resende, Provedor dos valados de Santarém, assinalado como Contador na comarca dos almoxarifados de Santarém e Abrantes em documento de chancelaria de 21 de Dezembro de 1447 (regência do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra), bem referenciado em documentos da chancelaria do Rei D. Afonso V, e de sua mulher, Inês Sodré, provável sobrinha do Fernão Sodré acima assinalado como Escrivão da Alfândega de Lisboa, em 1437.
Desta sorte, Duarte Sodré foi neto do antedito João Sodré, Cavaleiro em Ceuta com o 1º Governador, D. Pedro de Meneses, que alguns autores assinalam como, mais tarde, fidalgo da casa real de D. Afonso V. Ademais, o facto de ter escolhido o nome de João para o filho mais velho indicia que esse seria o nome do avô.
A chave para estas ligações está na carta régia, de D. Afonso V, passada ao Escudeiro da Casa Real Antão Sodré (irmão de Duarte) em Tentúgal, a 2 de Setembro de 1464, fazendo-lhe mercê de Contador dos valados de Santarém e Abrantes, juntamente com seu pai Gil Pires de Resende (e não cunhado como já vi escrito). Antão Sodré subiria a Cavaleiro, e a documentação demonstra que, tal como seu pai, prosseguiu carreira em diferentes cargos de natureza administrativa, nomeadamente o de Corregedor de Entre Tejo e Guadiana em 1482.
Todavia, a personagem masculina da família Sodré mais unida a Vasco da Gama foi o seu tio Vicente Sodré, irmão mais novo de sua mãe Isabel Sodré, que fica na História como o primeiro Capitão-mor de uma esquadra europeia destacada a título permanente para a Índia (baseada em Cochim na costa do Malabar), incumbido de levar a cabo missões de domínio da navegação no Oceano Índico. Foi o primeiro Português a alcançar a Ilha de Socotorá e a explorar as costas do Sul da Península Arábica. Como Sota-Capitão levou o irmão Brás Sodré, antigo Cavaleiro da famosa Guarda de Ginetes de D. João II (na qual foi companheiro de Afonso de Albuquerque).
Vicente Sodré terá tido um papel de relevo na decisão de D. Manuel de substituir o indigitado Pedro Álvares Cabral por Vasco da Gama, na viagem para a Índia que partiu de Lisboa a 10 de Fevereiro de 1502, indo empossado de comando próprio de uma esquadra de cinco velas destinada a ficar no Índico e como Vice-Almirante do conjunto da armada, logo a seguir a seu sobrinho.
Com o regresso de Vasco da Gama a Portugal, Vicente Sodré ficou incumbido de duas tarefas estratégicas aparentemente inconciliáveis, porquanto tinha, por um lado, de garantir a protecção das feitorias portuguesas e dos Rajás de Cochim e de Cananor, nossos aliados, contra o poderoso Samorim de Calecute, e, por outro, de explorar e patrulhar as costas da Arábia e o Estreito do Bab el Mandeb, bloqueando as ligações marítimas entre o Cairo e os portos fornecedores das especiarias.
Só com cinco navios procurou fazer o possível, mas a inexperiência de navegação naqueles mares não lhe permitiu descortinar a aproximação de um furacão que causou a sua morte, por naufrágio, junto das ilhas de Curia Muria, em 30 de Abril ou 01 de Maio de 1503. Eliminado fisicamente, foi fácil a alguns denegrir a sua actividade, mas os diversos factores intervenientes merecem análise mais profunda, o que modestamente tentei realizar em estudo evocativo já concluído.
Em finais de 1500 ou no ano seguinte, Vicente Sodré torna-se Alcaide-mor de Tomar e Provedor da alma do Infante D. Henrique, cargos que pertenciam ao falecido Duarte Sodré e que não passaram para o filho deste Francisco (apenas herdou o de Alcaide-mor de Seia). Teve dois filhos, Fernão Sodré (nome do avô de Vicente)e João Sodré (nome do pai de Vicente). Fernão, legitimado por carta régia de 5 de Outubro de 1501, filho de Isabel Fernandes, foi Cavaleiro da Casa Real de D. João III e chegou a Alcaide-mor e Feitor de Ormuz, por carta régia de 4 de Fevereiro de 1528; João foi Escudeiro-Fidalgo. O irmão de Vicente Sodré, Brás Sodré, foi pai de Simão Sodré, figura assaz referenciada pelos cronistas, que serviu largos anos na Índia, sobretudo como comandante de navios.
Em 1524, o Vice-Rei, D. Vasco da Gama, nomeou Simão Sodré Capitão-mor de uma esquadra de quatro velas com que derrotou seis navios de piratas nas Maldivas. Este foi um verdadeiro homem do mar, realizando pelo menos três viagens de ida e volta entre Portugal e a Índia. A 09 de Abril de 1523, zarpou pela primeira vez como Capitão de um navio da armada de Diogo da Silveira. A 24 de Março de 1539, partiu de Lisboa como Capitão da nau Rainha da armada de Pêro Lopez de Sousa. A 25 de Março de 1543, voltou a ir para a Índia como Capitão da nau Conceição Galega da armada de Diogo da Silveira.
Cavaleiro-Fidalgo de El-Rei D. João III, ficou também memória da sua obstinação em, já muito idoso, partir do Reino com tropas para defender a praça de Mazagão cercada pelos mouros, em 1562. Exemplo do que de melhor havia nos antigos Portugueses, acabou, porém, por morrer solteiro e sem descendência.
Ficam, deste modo, desenhadas ligações genealógicas entre os Sodrés do século XV, e começos do seguinte, entre si e com Vasco da Gama, baseadas em documentação segura, que corrigem numerosos erros dos genealogistas. Um ponto interessante a investigar seria a hipótese do forte e constante envolvimento dos Sodrés na Ordem de Cristo haver facilitado o abandono, por parte de Vasco da Gama, da Ordem de Santiago e sua passagem para a de Cristo, algures na primeira metade do ano de 1507, em resposta à ofensa de ter sido coagido a abandonar definitivamente Sines, por acção do Mestre de Santiago, D. Jorge, a que o Rei D. Manuel deu cobertura por alvará de 21 de Março de 1507, favorável a este.
 
Anexo
 
O Secretário da Índia, Vicente Pegado, em carta de 1 de Janeiro de 1525, distingue Manuel Sodré como uma das “velhas figuras da Índia” que apoiaram Vasco da Gama no seu regresso à Índia como Vice-Rei, em 1524.
Manuel Severim de Faria apresenta alguma informação sobre aquele fidalgo e transcreve uma sua carta a El-Rei D. João III assaz curiosa, que apresento com comentários meus a fim de melhor situar e esclarecer o texto.
 
Na mesma Chancelaria (D. João III) acima de vinte e oito folha 74 (livro de ofícios e mercês de 1528) fazemos saber que havendo respeito aos serviços de Manuel Sodré, Fidalgo de Minha Casa, a El Rei meu Senhor e Padre e a mim tem feitos, etc. (....) faz-lhe mercê de Anadel-mor dos besteiros e espingardeiros nas partes da Índia em sua vida, aonde é morador, com ordenado de sessenta mil réis cada ano. Em Almeirim, a dezoito de Fevereiro de 1528.
 
No livro dos confessados do ano de 1539, 1540 e 1541, que está no armário segundo das mercês e moradias, (talvez perdido, porque não o encontrei na Torre do Tombo)(....) está uma verba debaixo do título de Cavaleiros-Fidalgos que diz assim, folha 16, Manuel Sodré, filho de Duarte Sodré, a dois mil por mês.
 
No maço vinte e cinco dos moradores da Casa da Rainha está uma carta de Manuel Sodré escrita a El Rei D. João III de Cananor, em dois de Janeiro de 1544, em que dá conta de seus serviços desde o tempo de Jorge de Aguiar, com quem foi à Índia com outro seu irmão que lá morreu em serviço (Francisco Sodré), e que foi a tal ida no ano de 1508, suas palavras são estas: em ser filho de Duarte Sodré, Alcaide-mor que foi de Tomar e Seia, Comendador da Cardiga, em tempo de El Rei que Deus haja (D. Manuel), seu Vedor e muito valido em sua Casa e conhecido no Reino, e por se esmerar em bem servir nos deixou pobres a meu irmão e a mim, não tendo outros filhos (refere-se a Francisco Sodré, porquanto o mais velho, João Sodré, terá falecido novo). Eu Senhor vim na armada de Jorge de Aguiar (morreu em naufrágio nocturno nas ilhas Tristão da Cunha) muito moço e comecei de servir com Duarte de Lemos na costa de Etiópia e Arábia e Ormuz, e ajudei a fazer a Fortaleza de Moçambique (seria a robusta torre que foi erigida em 1508), e depois Dom Afonso de Albuquerque todo o tempo que governou e com ele fui na tomada de Goa (trata-se da reconquista, a 25 de Novembro de 1510), onde quando foi para Malaca me deixou por Capitão da fortaleza e com a Capitania dos besteiros e espingardeiros com que me achei no cerco de Goa (pelo Idalcão de Bijapor, Ismael Adil Xá), quando os mouros entraram a ilha e mataram Rodrigo Rabelo o primeiro Capitão dela e eu ajudei a suster todo o tempo de cerco com muito trabalho e risco de minha pessoa sendo muitas vezes ferido até vir de Malaca Afonso de Albuquerque que a descercou e tomou Benastarim (em Novembro de 1512) outra fortaleza que os mouros tinham na ilha de Goa onde me então achei com ele. Fui ajudar a fazer a Fortaleza de Ormuz onde com uma galeota andei rondando e guardando a ilha que não entrasse gente da terra firme a ela, e assim servi todo o tempo de Lopo Soares (de Albergaria) com quem fui ao estreito a ver Judá (ou seja Jiddah, em 1517) e depois fui com ele ajudar a fazer a Fortaleza de Ceilão (Columbo, em 1517), e assim servi todo o tempo de Diogo Lopes de Sequeira com quem fui ao estreito de Meca (incursão no Mar Vermelho em 1520) e lhe ajudei a fazer a Fortaleza de Chaul e também servi em tempo de Dom Duarte de Meneses, andando sempre de armada e então por me ver pobre, e gastado, e esquecido, e mal provido de Vossa Alteza me casei para com o casamento que me deram me sustentar, o qual tornei a gastar em seu serviço. Começando a servir com o Vice-Rei Conde Almirante (Dom Vasco da Gama, em 1524), e com o Governador Dom Henrique de Meneses fui no descerco de Calecute, quando esteve cercada a fortaleza, com uma galé de que era Capitão, e também fui na destruição de Panané e de Coulete, onde se tomaram cem fustas com muita artilharia e se matou muita gente e assim servi no tempo de Lopo Vaz de Sampaio em começo de sua governança, me deixou na boca do Rio de Chale (um pouco a Sul de Calecute) na mesma galé e uma caravela guardando o rio, que não saíssem dele naus de mouros, que estavam carregadas de pimenta para Meca, e vendo-me assim o Samorim e mouros mandaram sobre mim cem fustas e navios de remos com muita gente e muita artilharia para me tirarem da boca do rio, com os quais navios pelejei um dia pela manhã até noite e com trabalho os lancei de mim, metendo alguns no fundo e matando-lhe muita gente com as espingardas, à vista do Samorim que estava na praia fazendo embarcar a gente de refresco em almadias (este combate terá ocorrido em 1526), e assim servi com Nuno da Cunha e fui sobre Diu (tentativa de conquista falhada, a 15 de Fevereiro de 1531), e assim no fazer da Fortaleza de Chale (em 1530) e na tomada de Baçaim (em 1533), e daí fui com Paulo da Gama para Malaca, e depois estive lá a mais do tempo com Estevão da Gama na guerra e na tomada de Anteritana (?) duas vezes e na derradeira me perdi com ele em uma fusta que se alagou com o tempo onde milagrosamente nos salvámos alguns, e assim também servi com o Vice-Rei Dom Garcia de Noronha e fui de Cananor onde ora vivo com quinze navios de remos, fustas e catures, para ir com ele aos rumes (em 1540), com a qual armada ele muito folgou e com a boa gente que lhe levava de Cananor, e também servi com o Governador Dom Estevão da Gama (filho segundo de Dom Vasco da Gama), e no seu tempo me proveu na Capitania de Cochim, após Dom Fernando de Eça, per e por vaga, em a qual estive quatro meses por vir provida por Vossa Alteza a Paio Rodrigues de Araújo, em a qual gastei mil cruzados, com dar de comer à gente, por ter más novas de que o Samorim queria passar a Cochim no Inverno com muita gente que para isso tinha junta, etc.
(....) Vai dizendo como tem filhos que vão servindo na guerra e que na idade em que se achava, se achou com Martim Afonso de Sousa na armada do pagode de Tremel, e no pagode de Coulão (Dezembro de 1537) onde foi ferido, e para todos estes serviços alega por testemunhas Dom João de Lima, António de Saldanha, Dom João de (....), Dom Aleixo de Meneses, Francisco Pereira de Berredo, Francisco de Sousa Tavares, António Ferrreira, Dom Gonçalo Coutinho, Rui de Brito Patalim, António de Miranda, e outros muitos que o muito bem conhecem. Pede-lhe (a D. João III) a Capitania de Cochim com as ilhas de Maldiva em sua vida, porque é já de sessenta anos, e que lhe tome seus filhos, e que um deles veio para o Reino em companhia de Dom Estevão da Gama, com o qual foi a Suez e ao Toro (no sopé do Monte Sinai, em Maio de 1541), onde o fizeram Cavaleiro (o Imperador Carlos V terá afirmado que invejava os que foram armados cavaleiros em tal feito).
 
Bibliografia Sumária
 
Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº 113, Setembro de 1963
Brocardo, Maria Teresa - Crónica do Conde D. Pedro de Meneses, Fundação Gulbenkian, 1997
Castro, Sérgio Sodré de – O Brasão do Sodré Chefe, Armas e Troféus, 1991
Idem – Raízes de Vasco Gil Sodré, primeiro povoador da Ilha Graciosa, Boletim da Academia Portuguesa de Ex-Líbris, 1994
Crónicas sobre a presença portuguesa na Índia (João de Barros, Gaspar Correia, Lopes de Castanheda, Diogo do Couto, Damião de Góis, etc.).
Faria, Manuel Severim de – Torre do Tombo, 1616, A.N.T.T. e Biblioteca Braamcamp Freire
Freire, Anselmo Braamcamp – Arquivo Histórico Português, vols V, VIII e X
Livros das Chancelarias Régias e do Registo Geral de Mercês, A.N.T.T.
Leitura Nova de D. Manuel, Livro da Beira, A.N.T.T.
Monterroyo, José Freire de – Nobiliário, 1743, B.N.L.
Monumenta Henricina, vols I, IV e XV
Pereira, Isaías da Rosa – Matrículas de Ordens da Diocese de Évora (1480-1483), Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1990
Pimentel, Luís Conde – Acerca do Povoamento da Ilha Graciosa, Boletim do Museu Etnográfico da Ilha Graciosa, 1986.
Monteiro, Saturnino - Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vol I, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1989, 331p.
Relações das Naus e Armadas da Índia, Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1985.
Silva, Isabel Morgado de Sousa e - A Ordem de Cristo (1417-1521), in Militarium Ordinum Anaclecta, n.º 6, 2002, Porto, Fundação Eng. António de Almeida, 503p.
Silva, Oriolando Correia da – Falando sobre a Graciosa, Boletim do Museu Etnográfico da Ilha Graciosa, 1986
Sousa, D. António Caetano de – Provas da História Genealógica da Casa Real, tomo II, II parte.
Subrahmanyam, Sanjay – A Carreira e a Lenda de Vasco da Gama, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, 1998
 
publicado por Eu às 12:03
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Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Testamento de Duarte Sodré, 29 de Fevereiro de 1496

 

(Testamento feito em Montemor-o-Novo no último dia de Fevereiro de 1496, uma 2ª feira dia 29, redigido por Rui de Pina, talvez o que veio a ser cronista a guarda-mor da Torre do Tombo).
(Este texto é o do traslado que se fez em Santarém, a 14 de Setembro de 1524, a pedido da Abadessa do Mosteiro de Santa Clara)
(ADSTR, Convento de Santa Clara de Santarém, é esta referência do testamento no artigo “Ensaio sobre a origem dos Resende/Sodré” da revista Armas e Troféus de 2008))
(Eu tenho fotocópia do mesmo testamento existente no Livro das Escrituras e Partilhas, Testamentos, etc. 1465-1573, guardado no Arquivo Distrital de Santarém)
 
Trelado da Cedolla de Duarte Sodre
Porque a mais certa cousa que temos he morer e a menos certa a ora da morte portanto eu Duarte Sodre veador da casa d’el Rei Dom Manuel o primeiro noso senhor e alcaide moor das vyllas de Tomar e Sea estamdo em meu verdadeyro siso e proprio emtemdymento por descarguo de mynha comciemcia e por certidam de mynha fazenda aseceguo e comcordya de meus filhos faço esta cedulla que eu aprovo e ey por firme como o mais solene testamento que de direito se pode fazer e por ela revoguo todollos outros que ate quy tevesse feytos e quero que esta soo valha porque esta e mynha deradeyra vontade.
Primeyramente quando Noso Senhor Deus ouver por bem d’aquabar mynha vida eu d’aguora pera emtaom protesto e afirmo que mouro e morerey fiel christom e na fee verdadeira de Noso Senhor Jhesu Christo e que tenho e creyo fyrmemente ho que tem e cree a Samta Madre Jgreja de Roma e com esta inteyra fee emcomendo principallmente mynha allma a Jhesu Christo nosso verdadeyro Deus e Senhor e a elle peço com toda (riscado: solenidade) omylldade e inteyra devaçam que na lembrança de sua santa payxaom queyra aver com ella myserycordya pera lhe dar a groria e descamso que de sua imfimda pyedade espero e não a pena que meus gramdes pecados merecem e tomo ante seu inmenso poder por avoguada de minhas fraquezas a bem avemturada Vyrgem Maria sua madre nossa senhora a que humyllmente peço que por sua pyedade e minha devaçam ho queyra ser.
Mamdo que quamdo for meu falecymento seja meu corpo emterado em alguum mosteyro se o ho ouver no luguar ou jumto com elle e seja amte o altar de Nossa Senhora e pera yso se compre a dita sepultura como he de costume e se nom ouver mosteyro seja em algua igreja da avocaçom de Nossa Senhora e amte ho seu altar e ysto se emtenda se eu nom falecer em Tomar ou tam jumto com elle que me posam beem la levar porque neste caso mamdo que me sepultem demtro no comvemto porque sou profeso e em quallquer luguar me poram hum ataude sobre a mynha cova cuberto de pano da doo como se aos semelhantes acostumam.
No dya de meu falecymento mamdo que me façam ho oficyo dos mortos e me levem as tochas e ofertas que parecer bem a pesoa que em mynha casa a ese tempo tever moor carguo o quall se acomcelhara sobre yso com meus amyguos pera que faça ho devydo e não demasyado e me dyguaom alguas mysas nese dya rezadas e hua soo camtada e sayam sobre mym com respomso.
Item mamdo que sobre mym lamcem hua campanam com mynhas armas e nella se ponha letra que faça memorya de mym e de cujo criado fuy que he el Rey Dom Manuell noso senhor.
Item mamdo que ho meu testamemteyro mamde fazer saymento por mym comforme ao emterramento e seja ao tempo e no modo e maneyra que lhe parecer bem porque tudo leyxo a sua deseiçam.
Mamdo que me dygaom tres trymtayros emçarrados e por mynha alma dem por cada huum myll e quinhemtos reis e sejam dytos se for pocyvell na igreja omde eu for emterado ou se diguam em alguum outro mosteyro de boos homes relygyossos ou omde ao meu testamenteyro bem parecer e lhe for poçyvell.
Leyxo por testamenteyro de mynha alma e por tytor de meus fylhos todos a Amtaom Sodre meu irmaoom ao quall peço por merçe e pello amor de Deus e por a gramde afeiçam e amor que me sempre teve que se emcaregue deste meu testamento e de todallas cousas que se nelle comtem porque eu todas e cada hua dellas careguo sobre elle e semdo caso que elle per quallquer maneira nom posa leyxo o dito carguo inteyro ao senhor Joham da Silva senhor da Chamusca e d’Ulme a que peço por mercee que ho tome e o cumpra por servyço de Deus e pera bem e descarguo de mynha alma asy e pella maneyra que ho leyxo e ordeno a meu irmão.
Outrosy leyxo tres fylhos meus machos e tres filhas femeas e o prymeyro dos filhos he frey Joham Sodre frade de Sam Francisco da observancia e a este pois escolheo a mylhor parte que he servyr a Deus leyxo mynha bemção e a de Deus em que acabe a seu santo servyço.
Francysco Sodre que he o segundo filho a este soo em solydo leyxo ho meu casall que he no regengo d’Alvyella e o outro meu casall no regemguo da Tojosa aas Baroquas d’Aradinha dos quaes elle soo aja as remdas e direitos e asy lhe leyxo mais a elle soo as mynhas casas que sam em Santarem ao pee da calçada de Guayam que fycaram de meus padres com seu quymtall d’arvores e laramgeyras e mais huum pardyeyro que hy comprey pera ajuntar com ho dyto quymtall os quays casays e casas e quymtall leyxo ao dyto meu filho Francysco Sodre pera elle e pera todolos que dele decenderem segundo aqui decrararey por condyçam de morguado pera nom se poderem vender nem emlhear nem partyr somente quero que elle ou seus sucessores possam trocar os dytos casays por outra cousa de rayz de ygual renda de paom quando lhes bem vier porquanto os dytos casays estam em reguenguo e sera a tall permudaçam pera bens do termo de Santarem fora de regenguo os quais bens que assym leyxo ao dito meu fylho por seu falecimento vyram ao seu filho mayor per idade que fycar delle e se nom tever fylho baraaoom venha entaom a fylha que delle fyquar mayor e se não tever fylho baraaoom nem fylha neste caso ho dyto morguado venha a Manuel Sodre meu fylho se for vyvo e se não for vyvo venha a seus fylhos e fylhas asy como aquy aponto e não tendo os dytos meus fylhos baarons nem leyxando desy fylhos nem fylhas neste caso quero e mando que o dyto morguado venha a qualquer parente meu mais cheguado que se chamar de mynha alcunha e apelydoo que he Sodre e desy em dyante aquelle ho herde e aja e seus fylhos e sucessores polo modo e maneyra que ouveram de herdar meus fylhos e aquy he decrarado.
Mando e ordeno que ho que ouver d’aver e erdar ho dyto morgado se chame sempre da dyta alcunha de Sodre e se não se chamar que ho perqua e o soçeda loguo outro parente mais chegado que se chamar.
Item mando e ordeno que asy meus filhos e decendentes que pera sempre sucederem e tyverem o dyto morguado mandem dyzer cad’ano por mynha alma e mynha memorya hua mysa cantada dento na Igreja de Santa Cruz de Santarem por dia de Santa Maria de Setembro e a todos e a cada hum rogo e emcomendo por mynha bençam que o cumpram asy e em caso que algum o não queira ou não possa cumpryr nem por isso quero que perca o dyto morguado mas que o tenha como se tudo cumprisse mas este encarguo he tam pequeno e a comfianca com que o leyxo tamanha que espero que isto e muito mais folgaram de faser por meu descarguo e asy roguo peço e encomendo a todos meus herdeiros e sucessores que das suas terças despois de pagadas as cousas necessarias e divididas sempre folguem d’acrescentar neste morguado algua cousa pera compensação e acrescentamento desta linhagem e memorya della qua nesta esperança lhe dey este começo tam pequeno qua lho nom pude dar nem leyxar outro mayor.
Manuel Sodre meu filho terceyro he tomado del Rey nosso senhor este desejo que aprenda no estudo e siga as letras se for pera ellas desposto e pera isso peço e asy o pedira meu testamenteyro a el Rey nosso senhor que pera isso lhe mande dar no estudo sua moradya e lhe faça mercee como a fylho de quem sempre viveu e morreu em seu servyço e aos dytos meus fylhos encomendo e mando per minha bençam que sempre sirvam bem e lealmente e sua alteza qua se o asy fizerem seguyndo sua alteza e alto pryncipe e de muyta grandeza nom lhes posso leyxar mais certa herança que leyxalos pegados e juntos as virtudes e bondades de tal rey.
E eu som alcayde mor de Tomar e da villa de Seaa por el Rey nosso senhor e isto ouve de sua alteza por satisfaçam de meus serviços que foram sempre taaees e com tamto amor que o galardaom delles nom devia d’acabar com mynha vyda e portanto peço a el Rey nosso senhor que a meus fylhos ou a hum deles como sua alteza mais quiser queyra fazer merce das dytas alcaidarias mores ou lhas reparta como ouver por seu servyço.
Item Ynes de Rezemdee e Lyanor Sodre mynhas fylhas que estam em Santa Crara de Santarem com mynha irmaã Crara Sodre quero e lhes encomendo e mando que sejam freyras da dyta ordem e syrvam nela a Deus porque nelle he todo o bem e descanso e emcomendo-as há dita mynha irmaã que olhe põe ellas como virtuosa e boaã irmaã que sempre foy minha.
Item a outra mynha fylha que se chama Ysabell Sodre que esta com mynha ama Isabel Vasquez quero e mando que tambem seja freyra e desejo mays no mosteyro de Jhesus d’Aveyro que em outro algum e pera yso peço a el Rey nosso senhor d asy peço a meu testamenteyro e amyguos que lho peçam poys nom me fyqua outra cousa com que as leyxe emparadas se nom meus servyços e o galardam delles que sua alteza queyra fazer que a tome no dyto mosteyro e nelle lhe dar algua esmolla com que se onestamente mantenha.
Item Cateryna Nunes (no original lê-se claramente Nunes e não Eanes como escreve quem publicou a leitura paleográfica deste testamento) may de meus fylhos fique com elles e a elles leyxo e emcomendo por mynha bençam que sempre lhe façam bem como he rezam se lho Deus e el Rey fizerem como espero.
Item mando que de mynha fazenda dem a dyta Ysabel Vaz minha ama dez myl reis e a sua fylha Vyolante deem seys myl reys em dynheyro e duas camas de roupa dessa comum que ha em mynha casa e mays lhe leyxo as mynhas casynhas que comprey e estam junto com as casas d’Anrique de Sousa e esto pera seu casamento pelo serviço que ambas me fyzeram.
A Marya Fernandez minha cryada pello serviço que me fez leyxo seis mill reis e a Joham de Tramquoso por seu serviço tres mill reis e a Diogo Carvalho que he casado em Pernez por serviço que me fez seis mill reis e a Amryque Diaz morador em Vylla Framqua termo de Lynhares por serviço que me fez leyxo quatro mill reis.
Lopo d’Almeyda meu page quero que aja ho meu cavallo fouveyro e peço a el Rey nosso senhor que ho tome.
A Luis d’Almeida seu yrmão meu page leyxo ho cavallo pequeno murzello e peço a Sua Alteza que os queyra tomar por seus escudeyros porque são bons e de bom a lynhagem.
A Alvaro de Bayros por serviço que me fez leyxo oyto mill reis e a Diogo Anryquez por serviço quatro mill reis.
Joham de Tomar meu escravo fyque com Francisco Sodre meu filho damdo-lhe por sy outro espravo de doze ate dezaseis anos quero e mamdo que seja ho dito Joham Tomar foro e Margaryda mynha escrava fique tambem ao dito meu filho Francisco Sodre pera ho curar e servyr e Pero d’Evora meu espravo fyque a Manuell Sodre meu filho pera ho servir e o meu cavallo grande e hua azemalla a mylhor fiqye a meu filho Francisco Sodre pera se servyr dellas na Corte e omde lhe compryr. Item a cada hua das mynhas fylhas que estam em Samta Crara mamdo que dem trymta myll reis pera suas necesidades os quaees sejam emtreguees a dita mynha irmã como a sua curador pera fazer delles ho que vyr que lhes mylhor vem e mais leyxo a ambas as ditas mynhas filhas hua boõa cama de roupa liympa scilicet colchões e cocedra e cobertores e boons lemçoees e travyceyro e almofada (…) mylhor que ouver em mynha casa. Item todas mynhas armas de quallquer sorte e calydade que forem leyxo somente a meus filhos pera que ambos as partam irmaãmente e os meus vestydos que fyquam mamdo qe se vendam pera paguamento destas cousas que aquy leyxo ordenadas e se alguum de meus cryados quyser alguas peças delles dem-lhas em descomto do que a cada huum aquy leyxo por aquelles preços que forem rezoados e dem a meus filhos a mynha cama compryda com esparanell e alguas arquas que lhe comprirem pera guarda de suas cousas e todo outro movell e cousas se vendam pera paguamento destas cousas.
Devo a mynha irmã Crara Sodre alguum dinheiro que lhe sera paguo segundo se achara per meu escrito ou ella dyxer per sua verdade e comciemcia e a meu irmão Amtam Sodre tambem devo dinheiro elle ho tome de mynha fazenda se nom mostre meu asinado.
Devo aos erdeyros de Latam myll reis de pano que lhe tomey e tem meu asynado e devo a Abram Bracar de Lyxboa myll e setemta reis de que tem meu asynado e devo nas moradyas aos trantadores algum dinheiro do quall peçoo a el Rey Nosso Senhor que me faça merce e se ho nam fizer veja-se ho que dano e pague-se de mynha fazemda.
E a Jeronymo meu azemell devo de suas soldadas algum dinheiro e do tempo que me servyo e do que lhe tenho dado se achara certidam por esprito na mynha bueta que aquy traguo comygo de que tem carguo Lopo d’Almeyda veja-se todo bem e o que lhe dever paguem-lho inteyramente.
Duarte filho de Joham da Sertam fyque com Francisco Sodre meu filho ao quall emcomendo por mynha bençam que lhe faça bem.
E pera pagamento destas dyvydas e leguados leyxo a mynha prata que tenho de que tem carguo Lopo d’Almeyda e asy das outras cousas que traguo comyguo e a dyta prata he esta .scilicet. hum bacyo d’agoar as mãos dourado que pesa seis marcos e duas allbaradas que pesam ambas cimquo marcos e duas taças pycadas e douradas que pezam ambas cimquo marcos e duas escudellas que pesam ambas dous marcos e hum saleyro de hum marco e meio e nove collares de prata e hum copo que pesa hum marco.
Item leyxo as mynhas remdas do anno que se começou no Sam Joham do anno pasado de novemta e cymquo annos e se acabara no Sam Joham deste anno de noventa e seis de que alguas paguas se am-de fazer por comdiçam d’arendamento pera ho Aguosto do dyto anno de que se acharam as escreturas e arrendamentos dyso em hua mynha bueta que he em poder da dyta Ysabell Vasquez mynha ama e o que destas remdas hos remdeyros mostrarem per meus asynados que me paguaram levem-lhe em comta e o mais paguem segumdo sam obryguados e asy a dyta mynha ama dará comta de pam e vynho e roupa e de todallas outras cousas de mynha casa de que tem carguo e tudo fycara em sua verdade e comcyemcya porque ella he tall e o foy sempre que em tudo dyra e fara verdade.
Item Ysaque Romdim judeu morador em Tomar me he obriguado em trymta e tamtos myll reis de huas cavalarias que se obrigou a recadar por mym per hua escretura dos quaes a nos tem entregue alguum dinheiro de que lhe dey conhecymento e este se lhe leve em comta e o outro pague e desta cousa sabe bem Christovom Rodriguez meu cryado que fyquara dysto por solycytador e as escreturas que nysto toquam se acharam na dita bueta que tem mynha ama.
Item fiquam as mynhas remdas de Sea que sam vymtoito mill e trezemtos reis de que nom ouve ate fyntura deste algum pagamento estes se arrecadem e as escreturas e arrendamento estam na dita bueta.
Bryatiz Afomso mynha caseyra de Santarém recebeo nove moyos de tryguo e de cevada pouquo mais ou menos e asy (…) alguas cousas de mynha casa de que acharão hua enmenta e roll na bueta que traguo comyguo da comta de tudo e o entregue.
Item Peralta carpynteyro de Tomar tem hum bacyo de prata que pesa dous marcos a penhor de dous mill e oitocentos reis tyrem-lho ou elle torne a demasya e todos sabem ysto.
Item tenho a mynha meã anada pagua que sam vymte e nove mill reis de que acharam a carta na mynha bueta que he em Tomar em poder de mynha ama e ey aymda de paguar a quarta parte per aforar hos meus beens de raiz de que paguos em começo dez cruzados d’ouro e os mais se eu falecer ante de os acabar de paguar paguem-nos meus erdeyros.
Item mamdo que me emterem no meu mamto bramco que eu sempre traguo comygo como a nosa regra hordena e mamda a quall cedulla na forma e maneira que vay eu roguey e pedy a Rui de Pyna cavaleyro da Casa d’el Rey Noso Senhor e seu escprivão das comfrymações (jura…) esprevese como espreveo peramte mym e de mynha palavra ao quall pedy que asynase aquy comyguo por mor firmesa feyta em Montemoor ho Novo a deradeyro dia de Fevereyro anno do nascimento de Nosso Senhor Jhesus Christo de j iiijc lRbj annos.
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Domingo, 13 de Dezembro de 2009

Duarte Sodré, Alcaide-mor de Tomar, falecido a 25 de Agosto de 1500

 

  • Foi um dos mais importantes freires cavaleiros da Ordem de Cristo da segunda metade do século XV.
  • É bem possível que tenha nascido durante o reinado de El-Rei D. Duarte, entre 1433 e 1438, o que justificaria o nome próprio que lhe deram de Duarte.
  • Muito provavelmente, era natural de Santarém, pois os seus pais aí viviam numa casa ao pé da calçada do Gaião, que Duarte herdou. Sabe-se que era uma casa grande com um quintal de árvores e laranjeiras.
  • Sua mãe foi Inês Sodré, talvez nascida por volta de 1414.
  • O seu apelido de Sodré e respetivo brasão veio-lhe pelo avô materno, que uma fonte fidedigna, mas posterior, diz ser João Sodré e refere-o como Fidalgo  da Casa de D. Afonso V. Este João é provavelmente o mesmo que Zurara apresenta como Cavaleiro em Ceuta antes de 1418, pelo que deve ter participado na sua conquista em 1415.  .
  • Duarte não seria o primogénito mas sim um filho segundo. Seu pai, Gil Pires de Resende, exerceu diversos cargos ao serviço da Coroa, nomeadamente Contador régio nos almoxarifados de Santarém e Abrantes; Vedor-mor das obras régias de Almeirim; Procurador régio; Escrivão da sisa e dízima régia de diverso pescado do rio Tejo; e instituiu uma capela na Igreja de Santa Cruz de Santarém. Por linha feminina, descendia de Martim Vasques de Resende, a quem El-Rei D. João I, a 21 de Setembro de 1386, confirmou a posse do couto de Resende que lhe vinha de seus antepassados.
  • Em 1465, era Escudeiro da Casa do Infante D. Pedro (filho de D. Pedro, antigo regente do Reino e Duque de Coimbra, morto na Batalha de Alfarrobeira, a 19 de Maio de 1449), ex-Condestável do Reino e efémero Rei da Catalunha de 1464 a 1466.
  • A 06 de Junho de 1466, o Rei D. Afonso V perdoou-lhe o degredo na vila de Santarém, sendo Escudeiro da Casa do Infante D. Fernando, falecido em 1470 (Duque de Viseu e de Beja, Mestre da Ordem de Cristo, herdeiro do Infante D. Henrique “o Navegador”, seu tio. Foi o pai do futuro Rei D. Manuel), tendo pago 200 reais para a Piedade. Ainda desconheço qual a razão para esse degredo.
  • Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador de Santa Ovaya do Juncal, antes de 1475.
  • A 21 de Março de 1475, o Rei D. Afonso V privilegiou-o, a pedido do Duque (D. Diogo), ao conceder-lhe licença para arrendar a Comenda de Santa Ovaya do Juncal, da qual então já era Comendador.
  • A 21 de Junho de 1476, o Rei D. Afonso V confirmou o privilégio a Duarte Sodré, Comendador, para todos os seus caseiros e lavradores.
  • Vedor da Casa do Duque de Viseu, D. Diogo, que era o Mestre da Ordem de Cristo.
  • Por carta de 23 de Agosto de 1486, registada na Chancelaria do Rei D. João II, onde é designado como Cavaleiro da Casa Real, o Príncipe Perfeito autoriza-o a constituir um morgado nos reguengos de Tojoza e Alviela (termo de Santarém) com a obrigação dos sucessores seguirem o apelido Sodré.
  • No seu testamento, Duarte expõe o modo de sucessão nesse morgado e assume-se como fundador de uma linhagem iniciada com este morgado, cujos descendentes devem fazer por acrescentar e conservar a memória da sua origem.
  • Recebeu do Rei D. João II, a 10 de Novembro de 1492, a doação de certos bens e herança no lugar de Romão, no almoxarifado da Guarda, tomados a três moradores locais.
  • Vedor da Casa do Duque de Beja, futuro Rei D. Manuel, e Mestre da Ordem de Cristo, já o era a 10 de Novembro de 1492, passando a Vedor da Casa Real quando este subiu ao trono em 1495.
  • A 26 de Janeiro de 1493 já era Comendador e Alcaide-mor de Tomar (sede da Ordem de Cristo).
  • Provedor das capelas do Infante D. Henrique (o Navegador) com 7 marcos de prata de ordenado, desde o momento em que foi designado Alcaide-mor de Tomar, por inerência a este cargo decorrente de disposição testamentária do Infante.
  • Comendador da Cardiga, em data posterior a 26 de Janeiro de 1493 (neste dia ainda pertencia a Heitor de Sousa), uma das mais importantes da Ordem de Cristo.
  • Pelo menos desde 1494, foi Alcaide-mor de Seia.
  • Fez testamento em Montemor-o-Novo, a 29 de Fevereiro de 1496, o qual foi redigido por um tal Rui de Pina, Cavaleiro da Casa Real e Escrivão das confirmações, que bem podia ser o futuro Cronista e Guarda-mor da Torre do Tombo, autor de uma crónica de El-Rei D. João II.
  • No testamento manda que lhe façam uma campa “com minhas armas e nela se ponha letra que faça memória de mim”. Pede para ser enterrado ante o altar de Nossa Senhora.
  • A 07 de Agosto de 1500, documento refere-o como Fidalgo régio.
  • Faleceu a 25 de Agosto de 1500.
  • Está sepultado junto ao altar-mor da Ermida de Nossa Senhora do Monte, em Santarém, tendo a sua lápide, epitáfio, escudo de armas pleno de Sodré, ladeado de espada e lança-pendão.
  • Epitáfio “Aqui jaz o muito honrado Duarte Sodré que foi veador da caza D’ El Rey D. Manuel e alcaide mor das vilas de Tomar e Sea e comendador da cardiga o qual descende e vem da linhagem da caza do Sodrea que he caza de grandes senhores do Reyno de Inglaterra e finou-se aos 25 dias de Agosto de mil e quinhentos.” (*)
  • Segundo escreve o seu filho Manuel, terá morrido pobre devido à sua generosidade e, enquanto viveu, era muito valido junto do Rei e conhecido no reino.
  • Os seus descendentes que foram Senhores de Águas Belas (Ferreira do Zêzere), e usavam o apelido Sodré Pereira, eram considerados os chefes do nome e armas de Sodré, até porque também detinham o morgado por ele instituído em 1486.
  • Conforme diz no seu testamento, teve seis filhos legitimados de Catarina Nunes (os cavaleiros da Ordem de Cristo só puderam casar a partir de 20 de Junho de 1496 por autorização do Papa Alexandre VI), que chamaram João Sodré (frade franciscano), Francisco Sodré, Manuel Sodré, Inês de Resende (freira), Leonor Sodré (freira), Isabel Sodré (freira). Refere o seu irmão Antão Sodré (testamenteiro) e a sua irmã Clara Sodré (freira)
  • Integrando o seu morgado, que passou para o segundo filho Francisco, deixou dois casais, um no reguengo do Alviela e outro no reguengo da Tojosa, a sua casa em Santarém e alguns direitos e rendas.
  • Nomeia os seus pajens e outros servidores e os seus escravos, a todos fazendo mercês, os seus credores e os devedores para que se saldem as contas.
  •  Da enumeração de bens que manda distribuir fica-se com a impressão que pouco terá ficado para Francisco e Manuel e daí ambos terem partido para a Índia, em 1508, e por lá morrido.
  • As suas armas seriam divididas pelos seus dois filhos (Francisco e Manuel). O “cavalo grande” ficaria para o morgado Francisco. Ao filho primogénito, o franciscano João, deixa a sua bênção.
  • No testamento, afirma-se Alcaide-mor de Tomar e da vila de Seia, e Criado de D. Manuel.
  • Por disposição testamentária, pede para ser enterrado envergando o seu manto branco de freire cavaleiro da Ordem de Cristo que vestia diariamente, conforme ordenava a regra da Ordem.

(*) Há indícios de que os dizeres na campa relativos a vir de uma Casa do Sodrea, de grandes senhores ingleses, seja um empolamento dos seus descendentes, uma vez morgados, para enobrecerem as suas origens, e que, na realidade, o apelido Sodré derive de uma alcunha criada em Portugal, talvez na segunda metade do séc. XIV.   

 
publicado por Eu às 19:35
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